Anemia na criança… muitas vezes passa despercebida | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 2 Fevereiro, 2018

Anemia na criança... muitas vezes passa despercebida | Consultório Médico

A anemia ferropénica (por falta de ferro), é a anemia mais frequente em todo o mundo. Ela condiciona uma limitação na capacidade do sangue em transportar o oxigénio para os tecidos.

Apesar de estar em declínio nos países desenvolvidos, conseguido através de medidas como a suplementação dos leites com ferro ou a introdução do leite de vaca em natureza após o ano de idade (ou até mais tarde), a anemia existe ainda com bastante frequência, tanto em crianças como em adultos. A falta de ferro, mesmo sem a presença de anemia, está associada entre outras coisas, a um atraso no desenvolvimento psicomotor da criança.

Dado o risco de uma anemia não diagnosticada na criança, e por esta ser ainda mais frequente entre os 6 e os 24 meses de idade, foram já implementadas algumas recomendações, nomeadamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Direção Geral da Saúde (DGS) como seja a suplementação com ferro oral a todas as crianças a partir dos 6M e até ao ano de idade. Esta é uma medida ainda não totalmente consensual na comunidade médica por não haver estudos que comprovem que na criança saudável (sem anemia e sem défice de ferro) essa suplementação seja na realidade vantajosa.

Eu, embora concordando com a suplementação com ferro na criança mesmo sem estudo analítico que comprove a anemia ou o défice de ferro, não sou a favor de uma suplementação universal de todas as crianças. Costumo reservar a indicação para suplementação nos grupos de risco e nas crianças em aleitamento materno exclusivo até aos 6M de idade.

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GRUPOS DE RISCO

 As crianças de estratos socioeconómicos mais desfavorecidos, pela condição económica familiar têm um maior risco de desenvolver anemia; é frequente nestes meios a introdução do leite de vaca em natureza precocemente – antes dos 12M de idade, e vários erros alimentares com défice de nutrientes frequentes e crónicos ao longo do seu desenvolvimento.

O recém-nascido de baixo peso (<2500g) ou de muito baixo peso (<1500g) (prematuridade), nas hemorragias perinatais ou na gravidez gemelar, há indicação para iniciar a suplementação ao 1º mês de vida por terem um risco muito elevado de anemia.

As raparigas adolescentes com períodos menstruais abundantes e prolongados também têm um risco aumentado e poderá estar indicado o estudo para rastrear uma anemia assintomática de forma a que a correção seja o mais precoce possível.

 

SINTOMAS E SINAIS

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Infelizmente, de início, e em especial nos bébés e nas crianças pequenas, não há sintomas. O diagnóstico é feito por alterações analíticas, às vezes até solicitadas por outros motivos (de notar que não é costume, nem deve ser, fazer análises às crianças a não ser em casos específicos de doença ou de suspeita de doença).

Apesar de os sintomas serem escassos, há situações em que a gravidade da doença faz com que algumas alterações sejam evidentes: palidez, cansaço/fadiga, sonolência aumentada, atraso no desenvolvimento psicomotor, pica (a criança que tem apetite por substâncias não nutritivas como como terra, tinta, gelo ou carvão), unhas quebradiças, estomatite (aftas/lesões que afetam a cavidade oral) ou glossite (inflamação da língua com vermelhidão, perda da diferenciação das papilas, e por vezes com inchaço associado).

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DIAGNÓSTICO

O diagnóstico da anemia é sempre laboratorial, como já foi referido. É necessário avaliar os parâmetros do hemograma (as células do sangue) e os parâmetros relacionados com os depósitos de ferro. Os valores de referencia variam em função da idade da criança.

Caso tenha existido uma infeção recente, viral ou bacteriana, deve-se esperar 4 a 6 semanas até que se pedir uma hemograma para avaliação de uma eventual anemia já que as infeções podem transitoriamente provocar anemia (anemia transitória da infeção) que resolve espontaneamente sem necessidade de intervenção ou tratamento.

De salientar, contudo, que nem todas anemias se devem à falta de ferro (mas esta é sem dúvida a mais frequente!). Outras situações como o défice de ácido fólico, de vitamina B12 ou de vitamina A podem também provocar anemia.

 

TRATAMENTO

 O tratamento da anemia por falta de ferro faz-se com suplementação oral deste elemento a uma refeição principal de preferência, evitando sempre a toma simultânea com leite ou produtos lácteos, por estes inibirem a absorção do ferro disponível no mercado para suplementação oral na criança.

No entanto, o tratamento inclui também a correção de eventuais erros, nomeadamente alimentares, que possam ter promovido o seu aparecimento na maioria dos casos (aqui não se inclui como é obvio a anemia com défice de ferro que resulta de outras doenças crónicas ou problemas de saúde que a criança possa ter e que favoreçam a mesma).

Assim, há por exemplo uma inibição na absorção do ferro na ingestão de cereais não suplementados com ferro, na ingestão com os tanatos do chá ou na ingestão de produtos lácteos nas refeições ricas em carne ou peixe.

 

Espero que o artigo vos tenha sido útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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