Para que não me falte o ar… Asma

Este talvez seja um nome familiar para a maioria. Temos a ideia de que se trata de um problema respiratório, que se manifesta com crises agudas de falta de ar, mais ou menos graves e que os doentes asmáticos fazem umas “bombas” para controlar a doença…

Mas quanto sabemos na realidade sobre a asma? Quantos sabem que é uma doença crónica com necessidade de medicação diária? Quantos saberão que a asma pode levar à morte? 

A verdade é que a asma é uma doença com um elevado impacto na qualidade de vida dos doentes, com elevados custos socioeconómicos e tem uma elevada prevalência – cerca de 1 milhão de portugueses sofrem de asma e esta é a doença crónica mais frequente em idade pediátrica.

O que é a Asma?

É uma doença inflamatória crónica das vias aéreas. A resposta inflamatória induzida por diferentes estímulos em doentes suscetíveis, provoca a diminuição do calibre as vias aéreas, quer através do aumento da espessura dos próprios brônquios e alvéolos por causa das secreções e inflamação, quer pela contração dos músculos das suas paredes. Isto faz com que o ar que o doente respira circule em menor quantidade e com muito mais dificuldade (por haver maior resistência à sua passagem). 

Esta é uma doença mais frequente na criança/jovem, mas pode surgir em qualquer pessoa e em qualquer idade. Apesar de nas crianças por vezes ocorrer melhoria da asma na adolescência, muitas vezes com longos períodos sem sintomas, a suscetibilidade para desenvolver crises mantém-se ao longo de toda a vida e não se considera que a asma tenha curado, mesmo que não haja necessidade de medicação diária. 

Há diversos estímulos que podem desencadear a asma, sendo que habitualmente o doente asmático é uma doente com tendência para a atopia (alergia) e vice-versa. Por exemplo, é frequente a associação entre a asma e a rinite alérgica, sendo que até 80% dos asmáticos têm rinite e cerca de 40% dos doentes com rinite são também asmáticos. Quando associada à asma, o não controlo da rinite dificulta o controlo da asma. 

O agravamento da asma ou a ocorrência de uma crise pode dever-se diferentes estímulos como os pólenes, os ácaros do pó, o fumo de tabaco e outros poluentes, os cheiros intensos, o exercício físico, o ar frio, alimentos ou até alguns medicamentosem pessoas suscetíveis. A exposição a estes “triggers” provoca uma resposta inflamatória das vias aéreas com consequente dificuldade em respirar. O seu controlo permite uma vida normal, contudo, uma doença não controlada é altamente limitadora do quotidiano do doente asmático

Quais são os sintomas

A diminuição do calibre as vias aéreas e o aumento da resistência ao fluxo do ar, juntamente com o aumento das secreções brônquicas, explicam o principal sintoma da asma – a falta de ar (dispneia) e a tosse. A passagem do ar através da árvore respiratória apertada faz com que o ar ressoe e apareça a característica “chiadeira” ou os “gatinhos” (pieira) que os doentes se queixam, além da sensação de “opressão” torácica.

Uma asma não controlada manifesta-se com sintomas noturnos frequentes, com necessidade de medicação de alívio de forma recorrente e limitação das atividades do quotidiano pela falta de ar, pela tosse e pela falta de repouso adequado durante a noite.  A asma tem diferentes graus de gravidade e é uma doença dinâmica, com períodos de acalmia e de agravamento. Uma asma grave não controlada leva muitas vezes a internamentos recorrentes e pode mesmo levar à morte. 

Como se diagnostica

O diagnóstico é sobretudo clínico, ou seja, a história clínica, os sintomas e os sinais fazem o médico ter uma elevada suspeição da doença. Contudo, o diagnóstico definitivo passa habitualmente pela realização de estudos funcionais respiratórios que caracterizam não só a função respiratória e o padrão ventilatório (restritivo na asma) como a sua reversibilidade com os broncodilatadores.

Algumas análises sanguíneas e exames de imagem (como a radiografia do tórax ou mesmo a tomografia axial computorizada) podem ser por vezes solicitados no estudo de uma suspeita de asma para exclusão de outras patologias concomitantes como parte do diagnóstico diferencial ou para exclusão de complicações da própria patologia. Outros testes são também realizados para perceber eventuais alergias subjacentes ou fatores que possam ser considerados causadores das crises, com vista ao melhor controlo da doença seja tratando as alergias (caso se aplique), seja evitando os fatores “gatilho” que provocam crises. Estes exames não são, contudo, necessários para o diagnóstico definitivo da asma. 

Como tratamos a asma

Referir antes de mais queo tratamento da asma não tem intenção curativa, mas sim de controlo da doença e dos seus sintomas. Ou seja, o objetivo é que o doente asmático deixe de ter sintomas diurnos e noturnos, deixe de ter limitações das suas atividades diárias incluindo no exercício e deixe de ter crises de asma ou necessidade regular de medicamentos de alívio, além de uma função pulmonar normal (ou quase normal). 

Isto implica medicação diáriacom broncodilatadores (as bombas) mas também por vezes comprimidos em associação a estes. 

Quando se atinge um controlo clínico durante algumas semanas (~12), o médico vai tentar reduzir a dose da medicação em curso reavaliando regularmente a resposta. Muitas vezes, com a redução iniciam-se sintomas e é necessário retomar o degrau terapêutico anterior. Caso o controlo se mantenha, vai-se reduzir gradualmente a terapêutica até se encontrar a dose mínima necessáriados fármacos para aquele doente naquele momento. De referir que este procedimento tende a ser cíclico já que a doença vai ocorrendo com períodos de agravamento e melhoria, por maiores ou menores intervalos de tempo. Sempre que os doentes voltam a necessitar da medicação de alívio (de “SOS”) com regularidade, a asma não está controlada e é inevitável o aumento da terapêutica de base.

Existem, portanto, 2 tipos principais de medicamentos:

– Medicamentos de “alívio”– os broncodilatadores de curta duração usados em “SOS”, ou seja, em crise; são inaladores com fármacos de ação rápida que permitem reduzir o “aperto” de forma mais ou menos transitória das vias aéreas e com isso diminuir os sintomas – a chiadeira, a falta de ar e a sensação de opressão do peito; 

– Medicamentos de “base” ou de manutenção – são os fármacos usados diariamente para reduzir a inflamação da árvore respiratória para que se consiga evitar progressão da doença e as crises e, consequentemente, os sintomas. Os fármacos mais usados são os corticóides inalados, que são potentes anti-inflamatórios. Eles são os fármacos de primeira linha na asma e estão indicados em monoterapia mas por vezes é necessário associar broncodilatadores de ação prolongada,dependendo do estadio da doença. Os antagonistas dos recetores dos leucotrienos são medicamentos que tentam modular e alterar o tipo de resposta inflamatória ao nível do pulmão. As xantinas são fármacos broncodilatadores mais antigos e que hoje em dia são menos por haver outros mais eficazes. A imunoterapia através de fármacos biológicos anti-Ig e foram consolidados nos últimos anos e são medicamentos de último recurso reservados para doentes com asmas graves e muito difíceis de controlar com as terapêuticas habituais. 

Como controlamos

Além dos fármacos já falados, que são uma pedra angular no tratamento da doença, as medidas não farmacológicassão igualmente fundamentais. A evicção alergénica, nos casos em que há identificação de “triggers”, a educação do doenteem relação à necessidade de cumprimento da terapêutica de manutenção e em crise são imprescindíveis para se alcançar o controlo do doente asmático. A vacinação tem um papel igualmente importanteNão só as vacinasincluídas no plano nacional de vacinação, dado que os doentes asmáticos têm maior risco de infeções respiratórias e de complicações destas, mas também as vacinas antialérgicasquando indicadas ajudam ao controlo da doença. 

Omaior problema no controlo da asma é o incumprimento terapêuticopor parte dos doentes, já que não é fácil convencer uma pessoa que está aparentemente bem, a continuar a fazer medicação todos os dias. Isto é especialmente notório nos jovens, em especial nos adolescentes. O não cumprimento terapêutico é das principais causas de exacerbação na asma. 

Doentes que não têm a sua doença controlada, são doentes que faltam mais ao trabalho e recorrem mais aos serviços de saúde, aumentando desnecessariamente os custos socioeconómicos da doença. Controlar a asma é permitir uma vida normal e sem limitações a um doente crónico, seja ele criança ou idoso, sedentário ou atleta de alta competição. É permitir que não lhe falte o ar. 

Espero que o tema vos seja útil. 

Até breve, 

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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