O meu filho “chia” | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 2 Março, 2018

Bronquiolite. O meu filho tem chia

É muito frequente os pais trazerem os seus filhos e filhas à consulta por estarem a chiar, ou por terem uns “gatinhos no peito” durante a noite ou com a tosse…

A bronquiolite é uma infeção da parte mais fina da árvore brônquica que forma os nossos pulmões e é a causa mais frequente de pieira até aos 2 anos de idade, estando a sua origem mais frequentemente associada à infeção pelo vírus sincicial respiratório (VSR) sobretudo nos meses de mais frio (75%).

 

GRUPOS DE RISCO

Os bébés prematuros (<37 semanas de gestação), recém-nascidos com doença pulmonar ou doença cardíaca, bébés com malformações congénitas, crianças imunodeprimidas, portadores de trissomia 21 (síndrome de Down) têm maior risco de bronquiolites e destas serem mais graves. Da mesma forma, a exposição ao fumo do tabaco é igualmente um fator de risco para estas infeções.

 

SINTOMAS, SINAIS E DIAGNÓSTICO

A história clínica, o início e evolução de sintomas além de uma avaliação clínica, são cruciais para um diagnóstico acertado.

O diagnóstico da bronquiolite é clínico. A história tipicamente começa com sintomas típicos de constipação com nariz entupido e secreções nasais, podendo existir febre, seguindo-se a tosse por 2-3 dias, com progressiva dificuldade respiratória que se torna ruidosa – aumento da frequência da respiração, tiragem (um sinal do esforço que a criança faz para respirar) e pieira (um som com a respiração que se assemelha a miar de gatos no peito). O pico da doença ocorre habitualmente entre o 3º e 5º dia, e a mesma é auto-limitada com uma duração entre 3 a 7 dias. No entanto, a tosse pode persistir até 3 semanas após resolução dos restantes sintomas.

Regra geral não há necessidade de exames complementares de diagnóstico. A radiografia reserva-se apenas para casos de dúvida diagnóstica ou na suspeita de complicações. 

O diagnóstico diferencial inclui a infeção bacteriana (nomeadamente a pneumonia), a síndrome aspirativa (a aspiração de corpo estranho pode mimetizar inicialmente uma bronquiolite), as malformações congénitas (sendo muito importante aqui a idade da criança além de uma história clinica detalhada que dão pistas importantes para estas etiologias), ou a insuficiência cardíaca congestiva (onde por doença do coração começa a haver uma acumulação de líquido nos pulmões e que também cursa muitas vezes com pieira, além de outros sintomas). O diagnóstico diferencial entre bronquiolite e sibilância recorrente ou asma nas crianças em idade pré-escolar nem sempre é fácil, sobretudo nas crianças com idades superiores a 12 meses, mas é importante.

 

 

TRATAMENTO

 A alimentação nesta fase aguda deve ser fracionada – menos quantidade de alimentos e a intervalos mais curtos já que a criança se vai cansar com mais facilidade pela dificuldade respiratória. A hidratação abundante é fundamental dado que há um maior risco de desidratação pela frequência respiratória aumentada com maior perda de água.

A elevação da cabeceira da cama pode facilitar a respiração da criança durante o sono e dar assim algum conforto.

O isolamento respiratório e as medidas de higiene das mãos são medidas básicas comuns a todos os estados de infeção respiratória.

A desobstrução nasal com soro fisiológico deve ser realizada várias vezes por dia para melhorar a capacidade respiratória da criança.

O tratamento farmacológico é de suporte e sintomático já que a resolução da virose é conseguida pelo nosso corpo. Deve ser feito controlo da febre, se esta existir, e não há lugar para antibióticos para tratar a bronquiolite, exceto se ocorrerem algumas complicações no seu decorrer como a otite média aguda ou a infeção urinária. Habitualmente são feitas nebulizações com soro fisiológico, mantendo-se a controvérsia sobre o uso de broncodilatadores e de corticóides inalados, apesar de na prática estes serem ainda usados com alguma frequência por acalmarem os sintomas da criança (e os pais!), embora não alterem a evolução da doença – que é autolimitada!

De notar que o uso de expetorantes está contraindicado na bronquiolite por poderem agravar a dificuldade respiratória.

Há casos em que é necessário internar a criança para tratamento mais intensivo e/ou vigilância, nomeadamente nos bébés com <6 semanas de idade, ex-prematuros, crianças com outros problemas de saúde que condicionem um risco clínico mais agravado (doença cardíaca, imunodeficiência, doença pulmonar crónica, síndrome de Down), crianças com vómitos/recusa alimentar associada, na dificuldade respiratória grave com baixos níveis de oxigénio, crianças de elevado risco social onde se infira a incapacidade para cumprir a terapêutica necessária no domicilio.

A exposição ao fumo do tabaco aumenta o risco de internamento enquanto o aleitamento materno reduz este mesmo risco.

 

RECORRÊNCIA

Quando há uma recorrência de vários episódios de pieira, nomeadamente 3 ou mais, deve-se pensar noutras causas para a pieira recorrente que não apenas a infeção/bronquiolite e excluir outras patologias, nomeadamente a asma precoce. Nestes casos, mesmo que nem sempre se consiga um diagnóstico definitivo para a recorrência da pieira, faz-se muitas vezes medicação crónica diária para tentar diminuir a recorrência das crises – será mais provável que seja uma asma precoce do que bronquiolites recorrentes.

A bronquiolite por si não aumenta o risco de a criança vir a ter asma. O que acontece é que poderia já ser uma asma precoce que foi rotulada como bronquiolite. O problema é que esta distinção só se consegue fazer como o tempo…

 

Mais uma vez, espero que o artigo vos tenha sido útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

 

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