Colpocitologia: o famoso Papanicolau | Consultório Médico

O Papanicolau é dos “exames” que todas as mulheres sabem que têm de fazer periodicamente. Mas será que sabemos exatamente porque se faz e porque é que nós, médicos, insistimos tanto nele?

Pois bem, o tema deste mês é mesmo o famigerado exame, porque creio não haver mulher que goste de ter de o fazer; não que seja doloroso, mas porque é desconfortável, incómodo e implica uma intromissão na nossa esfera íntima.

E é mesmo importante fazer a citologia cervico-vaginal?

É!

A verdade é que desde a sua descoberta e à medida que tem vindo a ser implementado nos países um pouco por todo o mundo como teste de rastreio para o cancro do colo do útero, as vidas de milhares de mulheres têm sido salvas! Este teste de rastreio tem vindo diminuir a mortalidade por este tipo cancro, motivo pelo qual se caminha a passos largos para se conseguir a implementação em Portugal de um programa nacional de rastreio universal (um teste de rastreio é uma análise que permite despistar doença ou alterações percursoras de doença em indivíduos assintomáticos, ou seja, pessoas saudáveis sem qualquer queixa ou sintoma).

A colpocitologia ou citologia cervico-vaginal, também conhecida popularmente por Papanicolau, é um exame onde se procede à análise de células do colo do útero, cuja colheita é feita com recurso a uma “escovinha” suave que não é dolorosa. Nesta análise, pesquisam-se anomalias das células que podem resultar em cancro mais tarde (ao fim de 3 a 10 anos), caso não sejam tratadas. Ou seja, somos capazes de identificar células anormais, que ainda não são doença nem cancro, que não dão qualquer sintoma, mas que se permitirmos que se desenvolvam, vão culminar em neoplasia. E aqui reside a importância deste rastreio, já que a infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV), que é o principal causador deste cancro, provoca alterações nas células antes de se desenvolver a neoplasia. Sabendo nós que o cancro se desenvolve localmente de forma silenciosa dando habitualmente sintomas apenas quando já há uma invasão considerável, a sua deteção precoce é fundamental. No caso do colo do útero, não só conseguimos detetar estas alterações precursoras como as conseguimos tratar de forma eficaz e com tratamentos pouco invasivos, e que preservam a fertilidade da mulher. São poucas as neoplasias onde isto é possível e onde se salvem tantas vidas.

 

E quando se deve começar o rastreio?

Em Portugal, as orientações indicam a realização do rastreio do cancro do colo do útero, todas as mulheres assintomáticas entre os 25 anos e os 64 anos. Também se pode fazer antes destas idades ou depois, mas aí mediante uma avaliação caso-a-caso que justifique a precocidade do teste, já que por exemplo é sabido que antes dos 21 anos os falsos positivos são mais frequentes (ou seja, ter um teste anormal quando na realidade não há nenhuma lesão).

A nível internacional, as orientações são ligeiramente diferentes, com a indicações a serem muito especificas:

Não iniciar o rastreio antes dos 21 anos, independentemente da história sexual em mulheres sem fatores de risco;

– Entre os 21 e os 29 anos de idade, realizar a citologia a cada 3 anos, não havendo indicação para fazer o co-teste para pesquisa do HPV (até aos 30 anos a infeção pelo HPV é relativamente frequente e a maior parte das mulheres consegue eliminá-la naturalmente, pelo que não há indicação para a realização do teste de HPV dada a probabilidade de o teste ser positivo mas as células do colo serem saudáveis ou de terem alterações ligeiras e apenas transitórias);

– Dos 30 aos 65 anos, realizar o teste a cada 3 anos se não for realizado o teste do HPV ou a cada 5 anos se com co-teste para o HPV for negativo.

 

Após os 65 anos, regra geral, não há indicação para manter o rastreio, desde que nos últimos 10 anos os últimos 3 testes tenham sido normais ou então os últimos 2 testes com co-teste para HPV negativo, o último dos quais há menos de 5 anos.

As mulheres histerectomizadas (a quem foi removido o útero) por patologia benigna e onde o colo do útero foi também removido, podem cessar o rastreio após a cirurgia.

No nosso país, pelo menos na ARS Norte, há já um rastreio universal bem organizado, gratuito (ou seja, totalmente isento de taxas moderadoras), com as mulheres a serem chamadas a cada 5 anos para fazer a colheita em meio líquido na sua unidade de saúde (UCSP ou USF). Desde finais de 2016, a análise passou a contemplar o coteste para o HPV. Sendo o teste para HPV for negativo, apenas 5 anos depois é que a mulher é chamada novamente para repetir o rastreio. Quando há um teste positivo, a vigilância depende das alterações celulares associadas, podendo estar indicada apenas a repetição do teste em 1 ano ou então uma consulta de Ginecologia num hospital da rede, cuja marcação é automaticamente realizada.

Apesar de estar a ser implementado este rastreio a nível nacional, ainda pode acontecer nalguns locais o rastreio oportunístico das mulheres (o médico “aproveita” a consulta realizada por outro motivo para proceder ao teste) com a colheita em lâmina e não em meio líquido (são técnicas de análise diferentes, com a colheita em meio liquido a ser superior). Da mesma forma, as citologias realizadas fora do grupo etário definido para o rastreio nacional (<25 e >64), são habitualmente feitas em lâmina já que o meio líquido não é comparticipado pelo nosso sistema de saúde público, tal como também não é o teste para o HPV, ambos com custos bastante elevados. Assim, nestes casos, as orientações são para se realizar o rastreio a cada 3 anos.

Há vários motivos para se fazer a colheita fora das idades previstas, pelo que o melhor para saberem se está indicada a colheita no vosso caso, é falarem com o vosso médico assistente. Por exemplo, alguns fatores de risco para o cancro do colo do útero, que incluem situações que aumentam o risco de infeção pelo HPV entre outras, podem obrigar a um intervalo de tempo diferente dos acima mencionadas (habitualmente mais curtos). São fatores de risco conhecidos para o cancro do colo do útero: 

Múltiplos parceiros sexuais (ou parceiros sexuais que tiveram múltiplos parceiros);

– Início da atividade sexual numa idade precoce;

Sistema imunológico debilitado (HIV, quimioterapia, imunossupressores);

Cancro genital prévio;

Tabagismo.

Colpocitologia: o famoso Papanicolau | Consultório Médico

Cuidados a ter antes de realizar um Papanicolau?

Um dos mais imediatos que creio todas as mulheres sabem, é não estar menstruada já que a presença de sangue impossibilita, regra geral, a adequada avaliação das células.

A mulher pode ainda otimizar as condições para a colheita tendo alguns cuidados simples nos dois dias anteriores à realização do teste:

– Evitar a cópula;

– Evitar duches vaginais;

– Evitar o uso do preservativo e/ou espermicidas;

– Evitar o uso de contracetivo vaginal ou de medicação vaginal (salvo indicação contrária pelo médico assistente).

 

Sinais de alarme para o cancro do colo do útero?

Há alguns sinais que nos devem fazer recorrer de forma célere ao médico, embora nenhum deles seja sinónimo de cancro do colo do útero já que há várias patologias onde eles podem também ocorrer. A saber: 

Corrimento vaginal anormal;

Hemorragias vaginais anormais (perda de sangue fora do período menstrual, perdas de sangue com a atividade sexual);

Dor com a atividade sexual.

 

E por hoje é tudo. Espero que a informação vos seja útil e se já deviam ter feito o Papanicolau, não percam tempo e agendem uma consulta para o efeito.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família.

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