Desabafo de um Pai nutricionista cansado do pouco que se faz contra a Obesidade | Consultório de Nutrição

written by The Cute Mommy 12 Outubro, 2018

Desabafo de um Pai nutricionista cansado do pouco que se faz contra a Obesidade | Consultório de Nutrição

Em mês de Dia Mundial da Saúde Mental, 10 de outubro, de Dia Mundial da Obesidade, 11 de outubro e de Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, falar de alimentação saudável e de Obesidade é obrigatório.

Desculpem-me pelo facto de este texto não ser tão informativo como os anteriores, mas gostava de partilhar convosco algumas questões que me inquietam e para as quais a resposta já devia ter sido dada.

A obesidade bate-nos à porta e não só a convidamos a entrar e a sentar, como somos excelentes anfitriões. Quem se iria embora com esta receção?!! Provavelmente, ficava até ao fim!

No Dia Mundial da Obesidade conheceram-se mais uns estudos que alarmam, nomeadamente quanto ao número de adultos e crianças portuguesas com excesso de peso e obesos. E no dia 16, não tenho dúvidas, será mais um daqueles dias onde veremos governo, associações, escolas, administrações regionais, centros de saúde, hospitais, etc., a acenar a bandeira da alimentação saudável, de medidas novas, de projetos, de puro marketing que, um dia depois, voltam a ser arrumadas em gavetas e armários até dia 16 de outubro de 2019.

Nós, nutricionistas, apesar de sabermos tratar a doença, somos treinados para prevenir, para educar. Mas, se assim é, porque estamos tão longe das escolas? Porque não entramos na formação dos professores? Por que razão as Câmaras Municipais e Administrações Regionais não gerem mais longe dos gabinetes/consultórios e mais próximos das pessoas?

Porque é que um nutricionista, ou outro profissional, quando é responsável por uma unidade de restauração coletiva (refeitório/cantina) tem de fornecer uma refeição saudável, com produtos locais e sazonais de qualidade por menos de 1 euro (valores aproximados dos concursos públicos) sendo que esta tem de incluir sopa, prato, fruta/sobremesa e bebida?!

Onde está o papel do Estado, o garante da Educação e Saúde dos cidadãos quando olha apenas para o aspeto economicista, em vez de ter uma visão mais alargada, investindo na promoção da Saúde?

Um refeitório escolar não é mais saudável por fornecer alimentação vegetariana! Pode-se tentar «sacudir a água do capote», mas não chega e está longe, muito longe, desse objetivo. Essa água continuará no capote, se apenas isso for feito.

E o papel dos media no meio disto, como fica? Como é possível um poder tão grande dar tão pouca importância à mensagem que passa?! Como podem ser constantemente difundidas por estes meios, opiniões infundadas, cientificamente sem credibilidade?

E não me digam que a Nutrição é complicada, porque uns dizem uma coisa e outros outra!!! Há dezenas de entidades que se fossem consultadas prestariam um serviço público bem melhor e poderiam mostrar que a nutrição não é o diz que disse nem o hoje certo e amanhã o errado.

No entanto, mostrar a dieta mais «trendy»tem sido o caminho de quem se esquece da repercussão e importância que tem na difusão de mensagens, que se querem verdadeiras e rigorosas.

Para que tal acontecesse, bastava que estes poderosos meios consultassem muitas mais vezes entidades credíveis como a Associação Portuguesa de Nutrição, a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, as Faculdades e os docentes, a Direção-Geral de Saúde, o Ministério da Saúde, a Food and Agriculture Organization of the United Nations com delegação em Portugal, a Organização Mundial da Saúde, etc..

Estamos perante um dos maiores problemas de saúde em Portugal e no Mundo! Mas parece que nada muda. Mantêm-se as medidas avulsas e desconcertadas. Estamos perante um fator que agrava as principais causas de morte, dos que mais retira anos de vida saudáveis e continuamos a assobiar para o ar.

Como é possível ninguém ter tentado mudar uma cidade para criar ambientes menos obesogénicos? A resposta é fácil: como é algo que ninguém faz em 4 anos, poucos querem saber desta luta sem votos!

Apesar deste cenário e do muito que ainda há para fazer, notam-se alguns avanços. As crianças têm mais preocupações do que há uns anos. Mas isto é suficiente? Não. E os números provam-no. E esta preocupação compensa o sedentarismo atual? Provavelmente não.

A alimentação saudável, e os comportamentos que dela advêm, não é algo que se ensine. É, antes, algo que se transmite, que se observa, que passa nas entrelinhas e não nas linhas gordas.

Esta é a dificuldade e, por isso, este problema é uma bola de neve onde os números aumentam, aumentam e aumentam…!

E é precisamente por este motivo que, hoje em dia, as famílias precisam do Estado, das escolas, dos centros de saúde, das juntas de freguesia, das Câmaras Municipais, dos clubes desportivos, de equipamentos desportivos, de parques, de incentivos a saírem de casa, de políticas integradas de apoio à família e de uma Ordem dos Nutricionistas atuante e defensora das boas práticas. E digo hoje em dia tendo em conta o agravamento que se tem verificado, porque há uns anos o papel da família seria maior e o do ambiente e Estado menor.

De forma resumida, os nutricionistas e os conhecimentos de nutrição têm de estar diariamente presentes na vida dos portugueses, principalmente das crianças e de todos os que com elas lidam.

Até ao próximo artigo

Nuno Palas (www.institutomedicoprivado.com)

Comments

You may also like

Leave a Comment

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.