E quando eles batem com a cabeça?

As quedas são fenómeno frequente nas crianças e também nos adultos, em especial nas idades mais avançadas. Mas as crianças, pela sua curiosidade e necessidade de explorar todo um mundo, são mais propícias a estes azares. Apesar de na maior parte das vezes não causarem nenhuma complicação e não ser preciso nenhum cuidado especial, há algumas “pancadas” que podem ser muito graves.

Apesar de nos caber a nós pais (ou cuidadores), a vigilância das crianças, procurando evitar os acidentes, nem sempre é fácil de conseguir. Por vezes, atrevo-me a dizer, é mesmo uma tarefa hercúlea… os acidentes simplesmente acontecem até com os pais mais atentos e cuidadosos.

Mas como saber quando ficar preocupado ou não? Serão todos os trambolhões motivo para ir ao médico? É claro que não, mas há alguns sinais de alarme que vale a pena ter em mente para decisões mais rápidas e adequadas.

Cuidados gerais 

Habitualmente, independentemente do grau de gravidade, a maioria das crianças vai chorar. O choro por si só não deve ser um fator de preocupação a não ser que se prolongue ou se mantenha de forma insistente, sem que se consiga acalmar a criança. Da mesma forma, o facto de a criança não chorar apesar de um grande trambolhão, também não deve ser um fator tranquilizador já que a reação à dor e a tolerância a esta é extremamente variável, e as crianças não são exceção. 

Na criança que bate com a cabeça e que não desmaia, fica bem-disposta e mantém o seu comportamento habitual, deve-se manter vigilância nas 48 horas seguintes ao traumatismo. 

Havendo hematoma ou não no local da pancada, pode e deve-se tentar colocargelonas primeiras horas, por períodos de 10 a 15 minutos de cada vez, sem colocar diretamente o gelo sobre a pele, desde que a criança o permita. Um bom truque é ter um saco de ervilhas e cenouras babyno congelador, não só porque são coloridas, mas também porque são maleáveis e mais fáceis de adaptar à zona afetada. Não há problema em dar um analgésico em caso de dor, do tipo do paracetamol ou ibuprofeno.

Se a ferida sangras, deve-se aplicar pressão com uma toalha ou pano limpo de forma a estancar o sangue. Por vezes, aplicar uma toalha humedecida em água fria pode dar um maior conforto e permitir também parar o sangramento de forma mais rápida. Não se deve passar água na ferida sangrante já que isso vai prolongar a hemorragia, a não ser que a ferida esteja por exemplo suja ou com algum tipo de resíduos. 

Após um traumatismo, não devemos tentar que a criança coma ou beba logo a seguir. Os vómitos são frequentes em situações de dor e de choro intenso sem que isso seja anormal. Assim, é importante aguardar um pouco e ver como a criança evolui, pois, o vómito pode ser um sinal de alarme na realidade, mas também pode ser uma reação imediata perfeitamente normal em caso de dor. 

É comum ocorrer um sono um pouco mais prolongado após um episódio de dor ou choro intensos, da mesma forma que, com o aproximar do período do dia em que a criança habitualmente iria dormir, ela comece a ficar mais sonolenta. Assim, não deixar a criança dormir, apesar do medo que isso nos possa provocar por receio de que algo possa acontecer sem que nos apercebamos, é na realidade um erro. Ao obrigarmos a criança a manter-se acordada, ela vai ficar mais irritada, chorosa e sonolenta dificultando a vigilância e a interpretação de eventuais sinais de alerta. Deixar dormir a criança como habitualmente e vigiar o sono é uma melhor opção. Ir acordando a criança de vez em quando para ver como reage pode ser uma opção, mas apenas se o sono for mais profundo ou agitado do que o habitual..

Quando ir ao médico

Quando ocorrem lesões intracranianas, os primeiros sinais/sintomas podem desenvolver-se apenas algumas horas mais tarde. Logo, uma avaliação clínica no imediata é muitas vezes normal, incluindo o resultado de exames que se possam ter sido feitos, sem que isso seja garantia de que tudo está bem e que não vai haver complicações. Ponderar fazer ou não exames e o seu timingé assim de muita relevância, até porque são habitualmente exames que implicam uma quantidade de radiação ionizante não desprezível, ainda para mais em crianças. Daí que a vigilância deva ser feita durante as 48 horas seguintes ao traumatismo, mesmo que a avaliação clínica feita logo após o mesmo tenha sido normal. 

Há alguns sinais que fazem suspeitar de um maior risco de lesão cerebral subjacente. Em qualquer momento, se a criança iniciar algum dos sinais/sintomas que a seguir vou mencionar, é para ir a um serviço de urgência para uma avaliação médica pois a probabilidade de complicações é maior. 

Assim sendo, os sinais de alarme após um traumatismo da cabeça são:

– Desmaio após o traumatismo/pancada;

– Convulsão;

– Vómitos súbitos, em jato e persistentes (³3);

– Dor intensa no local da lesão que não melhora com analgésicos ou com outras medidas e que é progressivamente mais intensa com o passar do tempo; 

– Prostração, irritabilidade ou sonolência anormais ou dificuldade em despertar a criança;

– Alterações de novo da marcha, desequilíbrio ou instabilidade ao andar (se aplicável de acordo com a idade da criança);

– Alterações da visão, desvio do olhar ou assimetria dos olhos de novo;

– Desorientação, alterações da fala, discurso incoerente ou dificuldade em articular palavras (se aplicável de acordo com a idade da criança); 

– Dor de cabeça ou incómodo provocado pela luz/claridade;

– Saída de um líquido claro, transparente e brilhante pelo nariz, boca ou ouvidos;

– Saída de sangue pelo ouvido;

– Dor ocular;

– Aparecimento de hematomas à volta dos olhos (olhos de panda);

– Amnésia (perda de memória); 

Na criança com menos de 2 anos de idade, com lesões de que resultam de situações de alto impacto como uma queda superior a 1 metro (1,5 metros para crianças com mais de 2 anos) ou se o traumatismo não tiver sido presenciado por um adulto, é prudente haver uma avaliação médica, sendo que qualquer um dos sinais descritos antes se mantêm como sinais de alarme também para esta idade.

Apesar de direcionada para a idade pediátrica, a do artigo deste mês é na realidade válida para qualquer idade.

Espero que a informação vos tenha sido útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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