Estrabismo… o que esperar | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 4 Maio, 2018

Estrabismo convergente, estrabismo divergente, estrabismo alternante, estrabismo latente… tanta palavra difícil… E não há mãe nem pai que fique indiferente quando nota que o filho “cruza os olhos” ou que tem os olhos desalinhados. Até eu, que sou médica, fiquei apreensiva quando me apercebi que o nosso príncipe mais velho com pouco mais de um mês de vida tinha estrabismo… por isso compreendo o desassossego de um casal quando de repente percebe que o seu rebento pode ter um problema de visão.

 

Mas então, o que é o estrabismo?

É qualquer desvio dos eixos visuais; ou seja, é um defeito do alinhamento dos olhos causando desvio do paralelismo do olhar normal. A prevalência estimada a partir de estatísticas em países semelhantes ao nosso, será de 3% da população, com mais de 15% de casos em crianças com menos de 14 anos de idade.

Os estrabismos mais frequentes são as tropias, ou seja, o desalinhamento evidente em binocularidade (com ambos os olhos abertos).  Se o desvio do olho afetado é no plano horizontal e “para dentro” (em direção ao nariz – uma esotropia), fala-se de um estrabismo convergente, enquanto que o desvio no plano horizontal “para fora” (em direção à orelha – uma exotropia) se chama de estrabismo divergente. O desvio pode ainda ser vertical (tanto para cima como para baixo), embora os dois tipos mencionados inicialmente sejam os mais frequentes; existem ainda desvios mistos, com mais do que um eixo envolvido.

Além do eixo do desvio, o estrabismo ainda se classifica como permanente ou intermitente. Por exemplo, no caso do meu filhote, ele tinha um estrabismo divergente alternante intermitente, ou seja, apenas 1 olho de cada vez apresentava um desvio no eixo horizontal e para fora, sendo que na maior parte do tempo os olhos não tinham desvio – sem estrabismo permanente.

A origem do estrabismo está no desequilíbrio dos músculos oculares, fazendo com que os olhos não fixem o mesmo ponto ou objeto, dando assim origem a duas imagens. A causa que leva ao desvio é variada, desde doenças relacionadas com a enervação dos músculos oculares, às alterações da acuidade visual ou mesmo doenças metabólicas.

Uma forma simples de avaliar a presença de estrabismo, consiste em pesquisar o reflexo luminoso na córnea (fazendo projetar a luz de uma pequena lanterna a cerca de 40cm de distância nos olhos da criança, verificar se o reflexo se encontra centrado nos dois olhos).

Os “estrabismos” são todos iguais?

Como já mencionado antes, não são. Os diferentes tipos de estrabismo, mediante a idade de aparecimento e a sua causa, têm gravidades e prognósticos diferentes.

Por exemplo, após o nascimento, é frequente os pais comentarem na consulta que o bébé “cruza muito os olhos”. O estrabismo convergente intermitente do recém-nascido é considerado normal até aos 6 meses de idade e ocorre por imaturidade do sistema visual, quer ao nível da motricidade ocular (os músculos dos olhos ainda estão a aprender a fixar o olhar) quer ao nível da capacidade visual que ainda se está a processar e a desenvolver. Há medida que o tempo vai passando e o sistema visual se desenvolve rapidamente, os episódios de desvio tornam-se cada vez menos frequentes e menos acentuados. No entanto, se após os 6 meses de idade ele permanecer ou se em algum momento o estrabismo passar a ser permanente, deverá ser feita uma avaliação por um Oftalmologista pediátrico.

Na infância, a forma mais frequente de estrabismo é o estrabismo (convergente) acomodativo (esotropia acomodativa) e surge habitualmente entre os 2 e os 5 anos de idade, embora possa aparecer mais precocemente. Este desvio deve-se, na maioria das situações, a um erro refrativo – a hipermetropia não compensada (dificuldade de visão ao perto). O esforço que a criança faz para focar as imagens por alterações da visão ao perto levam ao desvio dos olhos. Esta forma de estrabismo é de particular importância porque pode ser prevenida – a identificação da causa e a sua correção podem evitar o aparecimento de estrabismo permanente e consequente ambliopia (perda de visão).

O estrabismo latente é uma forma de estrabismo onde aparentemente não há desalinhamento do eixo ocular, mas quando se rompe a visão binocular para monocular (tapando um olho) surge um desvio (foria). Nestes casos, o desvio é latente porque o nosso cérebro consegue corrigir a falta de alinhamento recorrendo aos músculos extraoculares.

Daqui se entende a importância da avaliação regular com o médico assistente, com rastreio visual, para uma identificação precoce destas (e de outras) situações já que existem várias doenças que podem favorecer o aparecimento de estrabismo, sendo ele próprio ser um sinal/sintoma muito importante de eventual doença. Por exemplo, a visão de um olho pode estar comprometida por uma catarata, por um retinoblastoma ou por um descolamento da retina, desviando-se por não haver adequada fixação do objeto, mas a criança não verbaliza nenhuma queixa.

 

Fatores de risco, há?

Claro. Por exemplo, a historia familiar em 1º ou 2º grau de estrabismo, confere um risco acrescido à criança de vir a desenvolver estrabismo também.

A prematuridade (sobretudo menos de 28 semanas de gestação), o baixo peso ao nascimento (<2500g), os defeitos oculares congénitos, a paralisia cerebral ou a exposição a drogas durante o período pré-natal (onde se inclui o álcool), aumentam o risco de vir a desenvolver estrabismo.

Algumas doenças genéticas, com síndromes malformativas como a trissomia 21 (síndrome de Down), a síndrome de Crouzon, a síndrome de Prader Willi ou a espinha bífida estão associados a um risco aumentado de estrabismo.

De salientar, no entanto, que o estrabismo ocorre também em crianças saudáveis e sem antecedentes conhecidos.

 

O que posso esperar

O estrabismo na criança e no adulto têm implicações diferentes, não só pela eventual causa subjacente, mas pelo risco de perda de visão permanente que existe na criança.

Todos os estrabismos não corrigidos dão problemas de visão. Os mais frequentes são a ambliopia (diminuição da visão, sobretudo na criança mais jovem por ainda ter o seu sistema visual em desenvolvimento) e a visão dupla (diplopia) (sobretudo no adulto, onde os circuitos da visão estão completamente desenvolvidos e funcionantes).

Quando ocorre o desvio ocular, dá-se uma duplicação das imagens que chegam ao nosso cérebro – diplopia. No adulto, essa diplopia mantém-se enquanto se mantiver o desvio porque as vias visuais já estão completamente desenvolvidas e estabelecidas. No entanto, nas crianças e sobretudo até aos 4-6 anos de idade, os processos visuais ainda se estão a desenvolver, de tal maneira que a diplopia provocada pelo estrabismo provoca um mecanismo de “supressão” ao nível cerebral da segunda imagem, para que não haja desconforto. Este mecanismo mantido no tempo leva à supressão completa da visão no córtex visual de um dos olhos, apesar de este “funcionar” normalmente, desenvolvendo-se a ambliopia – a diminuição da acuidade visual de um ou de ambos os olhos, causada por desuso durante o desenvolvimento visual. Sabe-se que se não tratadas, cerca de 50% das crianças com estrabismo terão perda de visão devido a este fenómeno, ocorrendo cegueira olho afetado.

Após o diagnóstico de estrabismo, é necessária uma avaliação clínica completapara se determinarem eventuais fatores de risco bem como eventuais causas corrigíveis subjacentes ao desvio.

Devem corrigir-se todos os erros refrativos significativos presentes; como já referido anteriormente, no estrabismo acomodativo a correção da hipermetropia corrigirá o estrabismo. Outros casos terão a sua resolução após um período em que o “olho bom” é tapado para que o olho com desvio seja obrigado a um “treino” forçado. Noutras situações, o tratamento poderá esmo ter de passar por uma intervenção cirúrgica.

Sinais de alarme

Nas crianças mais pequenas, onde a verbalização não existe ou é ainda escassa e limitada, não há habitualmente queixas sintomáticas, pelo que o mais importante são alguns sinais e/ou comportamentos que elas podem adotar para tentar ultrapassar o incómodo que o estrabismo provoca.

Por exemplo, em alguns tipos de estrabismo a criança tenta compensar o desvio alterando a posição da cabeça; assim, um torcicolo que “não passa” em alguns dias deve ser avaliado por um Oftalmologista para despiste de patologia oculomotora.

Previamente à instalação da supressão, a criança pode fechar o olho desviado para evitar a diplopia; é um sinal que numa criança deve ser sempre valorizado.

 

Mais uma vez, espero que o artigo vos tenha sido útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

 

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