Exames invasivos da gravidez: A Amniocentese e a Biópsia das Vilosidades | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 7 Abril, 2017

É com alguma frequência que nos dias de hoje, pelos mais diversos motivos, é proposto a uma grávida uma amniocentese. Desde já saliento que este não é um “exame de rotina”, longe disso; tem indicações específicas dado os seus riscos.

Mas na verdade, muitas destas futuras mamãs não percebem bem porque se faz e os riscos são muitas vezes menosprezados, até pelos próprios médicos, porque para nós acaba por já ser uma “coisa” quase banal de se fazer. Contudo não é e tem riscos… e o pior deles todos para qualquer grávida… o abortamento. Ele é pouco frequente, mas acontece e infelizmente nós não conseguimos saber a quem vai acontecer…. Por isso achamos que clarificar um pouco este tema poderia ser útil.

 

Amniocentese

Antes de mais, convém explicar que a amniocentese em si é um procedimento e não um exame – é uma intervenção invasiva onde se pica a barriga da grávida até se alcançar a bolsa amniótica, que se “fura” também, para se colher líquido amniótico.

A recolha do líquido traz consigo células do bébé que nele flutuam, para que posteriormente estas possam ser analisadas. É claro que o próprio líquido também dá outras informações (por exemplo, para diagnóstico de infeção fetal ou para avaliação da maturidade pulmonar do bébé em casos específicos ou mesmo como terapêutica em alguns casos de excesso de líquido amniótico). Mas habitualmente, a colheita serve primariamente para obtermos as células do bébé e analisar a sua informação genética/cromossómica para descartar algumas doenças como, por exemplo, as trissomias 21, 18 ou 13 (síndromes de Down, Edwards e Patau, respetivamente) ou alterações dos cromossomas sexuais, entre outras.

Por envolver vários riscos a idade gestacional mínima considerada como mais segura para a sua realização são as 16 semanas. Com este tempo de gestação temos já uma quantidade satisfatória quer líquido (para poder “tirar” algum sem que faça diferença ao bébé) quer de células descamadas do bébé para que se consigam fazer os testes diagnósticos.  Além disso, esta idade gestacional permite cumprir o prazo legal para fazer uma eventual interrupção médica da gravidez, caso haja indicação médica para tal (que em Portugal é até às 24 semanas, excecionando-se as situações de fetos inviáveis, caso em que a interrupção poderá ser praticada em qualquer momento da gestação).

 

Quais as indicações para fazer?

Este é um procedimento que se “oferece” às grávidas quando há uma elevada probabilidade de o bébé ter uma doença genética. A indicação para a amniocentese pode advir de:

 – Rastreio pré-natal positivo (as ecografias, especialmente a do 1º trimestre, em conjunto com outros parâmetros definidos, resultam numa probabilidade de o bébé vir a ter uma doença genética/cromossómica);

Gravidez anterior com nascituro ou recém-nascido com uma malformação congénita;

História familiar de doença genética (anemia falciforme, talassemias ou fibrose quística por exemplo) com uma ecografia alterada.

De salientar que escrevi que este procedimento e os testes genéticos são oferecidos à grávida, porque eles não são obrigatórios (como quase tudo na medicina). A decisão em aceitar este procedimento que pode custar a vida ao nosso bébé, é sempre da responsabilidade da mãe/dos pais.

Os resultados finais podem demorar 2-3 semanas. E de referir que mesmo que haja indicação para interrupção médica da gravidez, mais uma vez, a decisão final é sempre dos pais.

 

Que riscos se correm com a amniocentese?

O principal risco é o abortamento, que pode ocorrer entre 0,5% a 1% de dos procedimentos (1 aborto por cada 100 procedimentos).

Outras complicações descritas são a infeção, a hemorragia, a perda de liquido amniótico, a sensibilização Rh materna (quando a mãe é Rh- e o bébé Rh+ e há contacto entre os sangues de um e de outro), o pé boto (se <16 semanas), resultados inconclusivos ou a necessidade de repetir o procedimento por material insuficiente para realizar os testes. As complicações são mais frequentes se amniocentese for realizada antes das 16 semanas. 

Apesar do que possa parecer, este não é na realidade um procedimento pouco doloroso e por isso mesmo não há sequer necessidade de anestesia local. É mais uma “impressão” o que se sente, do que dor propriamente dita.

 

Há alternativa?

A biópsia das vilosidades coriónicas, não sendo exatamente uma alternativa, é outro procedimento invasivo, possível de fazer a partir das 11 semanas, onde se colhe uma amostra de placenta para realizar os testes. Também ela tem um risco de abortamento idêntico ao da amniocentese e é ligeiramente dolorosa. A vantagem em relação à amniocentese é que pode ser feita mais cedo, permitindo eventualmente resultados mais precoces e um maior tempo de decisão, médica e eventualmente parental. A desvantagem é que há algumas situações em que a amniocentese permite diagnóstico e que a biópsia não (por exemplo, os defeitos do tubo neural, que também se detetam com frequência na ecografia do 2º trimestre).

No entanto, interessa dizer que a sua realização pode não evitar a necessidade futura de uma amniocentese já que a quantidade de testes a realizar varia de caso para caso e muitas vezes o material da biópsia das vilosidades pode não ser suficiente.

Termino reforçando uma ideia que acho que os pais nem sempre se apercebem, apesar de lhes ser explicado, creio que fruto da ansiedade que habitualmente envolve um destes procedimentos… nenhum dos testes que se fazem, mesmo que com resultados “normais”, garantem o nascimento de um bébé saudável. A verdade é que não se pode testar tudo e mediante o motivo/indicação para o procedimento/teste, há uma seleção que tem de ser feita. Além disso, ter o diagnóstico de uma alteração/doença, nada diz sobre a sua gravidade. Exemplo disso mesmo é a trissomia 21, cujo espectro de gravidade é vasto. Na verdade, a maioria das doenças que se procuram/testam não na realidade incompatíveis com a vida e nem todas são obrigatoriamente graves. As formas ligeiras existem. E estas são uma das dificuldades com que nos deparamos… saber que vamos ter um bébé com um problema, mas não saber a gravidade ou impacto real que este vai ter no seu desenvolvimento, ou ficar na incerteza de que apesar de os exames serem negativos, podemos ter um bébé que pode não ser saudável…

Até breve.

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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