O tema deste post surgiu num dia de semana, pelas 9 horas e poucos minutos, a caminho da escola das minhas filhas. A mais velha, de 5 anos feitos já este ano, olhou para o espelho retrovisor e perguntou-me: – Papá, podemos ir ao McDonalds? Em jeito de brincadeira, pensei imediatamente: “- não se desafia um padre a pecar!!???”

Esta simples pergunta despoletou em mim outras, nas quais ainda não tinha pensado, como por exemplo:

  • Logo a primeira foi este meu pensamento: “ Ainda há tanta e tanta palavra portuguesa que dizes mal e McDonalds saiu-te na perfeição!!” Será que a sonoridade da marca é propositada??!
  • A segunda, e que lhe fiz, foi: – Porque queres ir ao McDonalds? Ao que ela respondeu, porque os meus amigos falaram.
  • A última pergunta que lhe fiz foi: – O que é o McDonalds, sabes? Ela disse-me que era um jogo ou um sítio que tinha jogos e brinquedos.

Esta curiosa situação despertou em mim o nutricionista que sou e levou-me a pensar sobre este tema, nomeadamente, se há recomendações específicas sobre o assunto, se há idades certas a partir das quais as crianças podem comer este tipo de comida, se há estratégias mais adequadas e como se lida com o assunto.

Em primeiro lugar, dizer que a generalidade da oferta alimentar das cadeias de fast food é pior do que as da generalidade da restante restauração. A maior parte desta oferta, contém mais e pior gordura, mais sal e mais açúcar e uma publicidade que induz a um certo tipo de consumo menos adequado quer pela conjugação de alimentos quer pela indução à ingestão de uma quantidade exagerada. Com isto, salvaguardo o facto de me referir à generalidade pois, nas cadeias de fast food, ou pelo menos em algumas, existem soluções enquadráveis com uma alimentação saudável.

Em segundo lugar, não contém da minha parte com nenhuma atitude fundamentalista face à alimentação. Sou totalmente a favor da responsabilização das escolhas, e isso sim, tem de começar em tenra idade e deveria começar na escola durante o ensino obrigatório. Mas, mesmo assim, quanto mais tarde o seu filho(a) comer este tipo de comida, melhor, sem que para tal exista uma idade certa!

Como estava à espera, não existe nenhuma recomendação específica sobre esta matéria, restando apenas o bom senso dos pais em várias questões, como por exemplo, na frequência com que recorrerão a este tipo de restaurantes, no que escolherão para comer e na resistência que terão de ter para suportar a “pedinchice”.

Não acho que os pais devam promover a ingestão deste tipo de alimentos mas, tal como me aconteceu a mim, mais tarde ou mais cedo, isso acabará por lhe acontecer e a partir desse momento, é melhor que os seus filhos saibam lidar com o equilíbrio dessa ingestão do que viverem em constante ansiedade (sempre com vontade de ir comer) ou tornar isso num desejo (os pais que não deixam).

É inevitável falar de fast food e não falar de obesidade, principalmente em crianças. São inúmeros os estudos que a relacionam ao aumento da obesidade infantil e surgem de todos os cantos do mundo. Por exemplo, um estudo americano, na Califórnia, publicado em 2009, observou que escolas que tinham restaurantes de fast food próximos, os seus alunos comiam menos fruta, bebiam mais refrigerantes e tinham mais peso que alunos cujas escolas não tinham nas proximidades oferta de fast food. Mais um estudo americano, Ohio, referiu que 52% das crianças americanas come fast food mais de 3 vezes por semana, isto claramente é exagerado.

Isto torna-se mais importante, quando estudos científicos relacionam a ingestão exagerada de fast food com problemas que podem afetar o normal desenvolvimento cognitivo das crianças e o seu dia a dia, dos quais destaco os seguintes:

  • Desperta a vontade de comer pela combinação entre açúcar, gordura e sal;
  • Piora o aproveitamento escolar porque pode causar distúrbios de concentração e mau comportamento;
  • Aumenta o cansaço pois pode levar a desregulações de sono;
  • Pode criar problemas de obstipação;
  • Por último, diminui o espaço para uma alimentação saudável pois promove o desaparecimento de fruta e legumes na dieta.

Mas, atenção que, e voltando ao meu segundo ponto do início do post, apesar de decididamente este tipo de alimentação não ser a melhor, estes problemas que se lhe associam, apenas o são se a frequência for significativa. Nunca se colocariam estas questões se o seu filho(a) apenas comessem desta forma, por exemplo, 1 vez por mês.

E também não pense que todos os estudos são negativos para o fast food, ou referem-no como único culpado da obesidade infantil. Por exemplo, o estudo, também americano, National Health and Nutrition Examination Survey, bastante credível, observou que a ingestão de calorias provindas do fast food é praticamente igual entre rapazes e raparigas, é o dobro nos adolescentes do que nas crianças e o mais curioso, praticamente não altera com o peso da criança, ou seja, entre as crianças mais pesadas e menos pesadas a ingestão calórica provinda do fast food é praticamente igual.

Por isso, comer muitas vezes desta forma não pode ser bom, mas também parece não ser o único problema na questão da obesidade.

Em suma, mantenha uma alimentação saudável, o maior número de vezes possível, e quanto mais tarde o seu filho contactar com restaurantes de fast food melhor. Contudo, há de chegar o dia em que a pressão se torna intolerável e, nessa altura, aceda ao pedido e exemplifique-lhe, sempre pelo exemplo, que pode comer e pode ir, por exemplo ao McDonalds ou outro qualquer restaurante, desde que poucas vezes.

Até ao próximo post,

Nuno Palas – Instituto Médico Privado 

 

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