INFEÇÃO URINÁRIA… OUTRA VEZ! PORQUÊ? | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 6 Outubro, 2018

Infeção urinária… outra vez! Porquê?

A infeção urinária, especialmente na mulher, é dos motivos mais frequentes de consulta de urgência/agudos. Acho que é raro haver uma urgência em que não haja pelo menos um caso e diria que habitualmente a média deve andar pelas 2 a 3…

E se é frequente ter uma, a verdade é que ao longo da nossa vida, a recorrência destas infeções é elevadíssima. E a pergunta mais frequente que estas senhoras fazem é:mas porquê?É que só quem nunca teve uma cistite, desconhece o incómodo e o quão doloroso é. 

 

O que é a infeção urinária?

Apesar de o nome ser bastante esclarecedor, as definições ajudam sempre a perceber um pouco melhor. Assim, uma infeção urinária é a contaminação das vias urinárias por um agente microbiano, mais frequentemente, uma bactéria. Elas dividem-se em infeção urinária baixa (cistite– que acomete a bexiga e, no caso dos homens temos ainda a prostatite– que afeta a próstata, que embora não faça parte direta do sistema urinário está associada a este) e em infeção urinária alta quando há infeção do rim (a pielonefrite).

De salientar que existem outras patologias que mimetizam os sintomas da infeção urinária, nomeadamente da cistite, mas que não se devem a infeção microbiana da urina – caso do carcinoma in situda bexiga, da litíase vesical – “pedras” na bexiga, da uretrite ou da vaginite.

 

Sintomas

É possível existir uma infeção urinária sem sintomas (assintomática), mas o mais frequente é haver queixas algo exuberantes dado o incómodo que provoca.

Dependendo da gravidade da infeção e da sua localização (alta ou baixa), as queixas podem variar ligeiramente. Sendo que a cistite é a mais frequente, os sintomas mais reportados são:

– Urgência urinária (imperiosidade) – uma vontade intensa de fazer xixi de imediato;

– Ardor, dor ou desconforto ao urinar (disúria);

– Micções frequentes de pouca quantidade (polaquiúria) – basicamente está-se sempre com vontade de ir urinar, mas sai pouca urina de cada vez;

– Urina turva, rosada ou com sangue evidente e/ou escura;

– Urina com mau cheiro ou cheiro anormalmente intenso;

– Dor pélvica ou incómodo supra-púbico.

Estes sintomas podem existir isoladamente ou vários em conjunto. Os 3 mais frequentes e habitualmente associados entre si são a disúria, a polaquiúria e peso supra-púbico.

No caso de o rim estar envolvido (pielonefrite) os sintomas incluem habitualmente febre alta com arrepios de frio, náuseas e/ou vómitos e dor lombar alta do lado do rim afetado.

No caso das uretrites, além da disúria, é ainda frequente a secreção purulenta, sobretudo no caso das doenças sexualmente transmissíveis como a gonorreia ou a clamídia.

No caso das pessoas mais idosas podem não ser manifestadas as queixas habituais, sendo frequentes as alterações do comportamento como confusão ou agitação psicomotora. Também na criança as manifestações clínicas podem ser menos especificas, especialmente até aos 2 anos de idade, onde muitas vezes há irritabilidade, anorexia (falta de apetite), incontinência de novo ou esforço para não urinar (porque dói!) e/ou febre.

 

Causas e fatores de risco

A infeção urnária ocorre por invasão bacteriana ascendente, ao longo da uretra até à bexiga onde se multiplicam, apesar das defesas existentes.

Cerca de 80% das infeções urinárias ocorrem na mulher e são cistites (infeção apenas da bexiga). A mulher tem um risco maior do que o homem fruto da sua anatomia – a distância da uretra ao ânus é pequena e da uretra à bexiga também, já que temos uma uretra curta (cerca de 3,8cm na mulher versus cerca de 20cm no homem). Costumo brincar comentando que nós mulheres, fomos feitas por engenheiros e não arquitetos…. Daqui se compreende que o agente mais comumente envolvido seja a Escherichiacoli, uma bactéria habitualmente encontrada no nosso trato gastrointestinal.

Embora a atividade sexual seja um dos principais fatores de risco para desenvolver cistite na mulher, não é preciso ser-se sexualmente ativa para que esta ocorra.

Alguns fatores de risco específicos do género feminino, incluem:

– Uso de alguns métodos contracetivos – o diafragma e os espermicidas são facilitadores da infeção;

A menopausa – a diminuição dos estrogénios que acontece com a menopausa, provoca alterações ao nível do trato genito-urinário aumentando a vulnerabilidade deste;

Prolapso da bexiga – a bexiga descaída, ao permitir uma acumulação de urina por esvaziamento incompleto, é um fator predisponente e que deve ser excluído, especialmente na mulher após a menopausa. 

Além dos fatores já mencionados, casos de malformações ou de anomalias do sistema excretor urinário são fatores de risco conhecidos para estas infeções, especialmente nos bébés, ao provocarem no fluxo normal da urina. A litíase urinária (a existência de cálculos – “pedras” no rim/bexiga) e o aumento da próstata (no caso dos homens), também facilitam este tipo doença ao criarem obstáculos à passagem do fluxo urinário. Igualmente, as grávidas, os diabéticos ou pessoas imunodeprimidas (com as defesas em baixo), têm um risco aumentado não só de desenvolver infeções como de estas serem mais graves. O uso de fraldas, nomeadamente na criança, mas também em pessoas acamadas, e a incontinência de esfíncteres, são igualmente facilitadores destas infeções. A canalização ou instrumentação das vias urinárias (algaliação, procedimentos transuretrais como a cistoscopia ou procedimentos terapêuticos da bexiga ou próstata) são da mesma forma fatores de risco para a infeção.

 

Diagnóstico e tratamento

Além da história clínica e do exame objetivo do doente, fundamentais para a suspeição, o diagnóstico das infeções urinárias passa pela análise da urina, que em caso de infeção sofre alterações da sua composição habitual.

Nos casos de dúvida, nas mulheres pós-menopáusicas, nas infeções recorrentes ou em pessoas com doenças que aumentam o risco de infeção e/ou complicações (caso dos doentes diabéticos, das grávidas, das crianças entre outros), é habitual recorrer à cultura da urina para identificar não só o agente causal, mas também o seu perfil de sensibilidade/resistência aos diferentes antibióticos.

Nos caos de infeções recorrentes ou de infeções graves (pielonefrite, por exemplo) ou na suspeição de que outros fatores de risco possam estar presentes, pode ser necessária a realização de exames de imagem do trato urinário (nomeadamente a ecografia reno-vesical, a tomografia axial computorizada ou a ressonância magnética, com ou sem contraste). Mais raramente, pode ainda estar indicada a cistoscopia (uma endoscopia da bexiga), sobretudo nos casos de sintomas recorrentes sem que se consiga isolar um agente microbiano e onde se suspeita de uma causa não infeciosa para os sintomas.

O tratamento da infeção urinária é feito com recurso a antibióticos e a analgésicos, habitualmente por via oral. Nos casos de infeção grave, pode ser necessário o internar o doente para tratamento com antibióticos por via endovenosa. A urosépsis, é uma complicação grave da pielonefrite que coloca em risco a vida do doente.

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Prevenção

Para diminuir o risco de infeção urinária, sobretudo recorrente, há algumas medidas preventivas que se podem adotar, nomeadamente:

Hidratação abundante – a ingestão de líquidos, especialmente de água, vai aumentar o fluxo urinário – a nossa maior defesa, já que o fluxo unidirecional de urina “arrasta” as bactérias impedindo a sua proliferação na bexiga;

Higiene adequada – a limpeza “da frente para trás” sempre que urinamos ou que temos trânsito intestinal, ajuda a evitar a contaminação da uretra e da vagina pelas bactérias perianais;

Urinar após o ato sexual – mais uma vez, o fluxo urinário “limpa” a uretra impedindo a ascensão bacteriana;

Evitar produtos irritantes na higiene íntima – a pele é uma das nossas defesas e o uso de produtos irritantes pode comprometer a sua integridade bem como da uretra;

Trocar de método contracetivo – evitar o uso de diafragma e o uso de espermicidas;

Arando – acredita-se que o sumo de arando ajuda na prevenção das infeções urinárias, havendo já suplementos comercializados, apesar da evidência cientifica ainda não ser clara no seu benefício.

Nos casos de infeções recorrentes, poderá estar indicada a profilaxia antibiótica – ou seja, tomar antibióticos em baixa dose diariamente pelo menos 6 meses; a profilaxia com antibiótico após o ato sexual é proposta quando este fator é identificado como eventual causa da recorrência. No caso das mulheres pós-menopáusicas, o recurso a estrogénios vaginais é habitual e ajuda a prevenir as infeções recorrentes, desde que os mesmos não estejam contraindicados.

 

Espero que esta informação, apesar de longa, vos seja útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

 

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