Mão-pé-boca... Sim, é assim mesmo que se chama | Consultório MédicoA medicina é cheia de curiosidades e coisas difíceis… e depois de vez em quando há coisas esquisitas, mas onde o nome é na realidade até bem esclarecedor.

A doença mão-pé-boca é uma doença exantemática (ou seja, cursa com lesões de pele), muito contagiosa e deve-se a uma infeção vírica (e como tal não se trata com antibióticos). É das doenças mais frequentes em idade pediátrica e é causada por diversos tipos de vírus, incluindo o vírus Coxsackie A e o Enterovirus 71. Atinge mais frequentemente as crianças entre os 3 e os 10 anos, sendo rara nos adultos, e é habitualmente autolimitada; contudo, raramente, podem surgir complicações cardíacas e neurológicas (miocardite, pericardite, meningite ou encefalite), com risco de morte, especialmente com os vírus acima mencionados, potencialmente fatais.

 

Como se manifesta?

Clinicamente, é habitual existir febre por um período de 1 a 2 dias, com má reposta aos antipiréticos e dor de garganta, sendo frequente o atingimento do estado geral (perda de apetite, mal-estar geral e até alguma prostração). Pouco tempo depois de se iniciarem os primeiros sintomas, surgem lesões na cavidade bocal, inicialmente como pequenos pontos ou manchas avermelhadas que rapidamente evoluem para bolhas (vesículas) e depois feridas tipo aftas (úlceras), estas últimas muito dolorosas e que por isso dificultam a capacidade para ingerir alimentos, especialmente nas crianças, com consequente risco de desidratação. Finalmente, surge a erupção da pele com aparecimento de pequenas lesões papulo-vesiculares de base avermelhada, tipicamente nas extremidades distais dos membros, mãos e pés, com atingimento das palmas e plantas e que não dão comichão. Apesar de serem mais típicas nestas localizações, a vesículas podem surgir noutros locais do corpo. De referir que quando rebenta uma destas bolhas, o seu líquido é contagioso.

Apesar do nome, cerca de ¼ dos doentes não desenvolve todos os sintomas – pode não haver febre ou podem não se desenvolver as lesões da pele ou as da boca.

Mão-pé-boca... Sim, é assim mesmo que se chama | Consultório Médico

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Como se transmite?

Geralmente, a fase de maior contágio da doença é durante a primeira semana. Todavia, mesmo após a cura, o doente pode continuar a eliminar o vírus nas fezes, mantendo-se o contagioso durante dias ou até semanas depois dos sintomas terem desaparecidos. O período de incubação é de cerca de 3 a 6 dias (período que vai desde o contágio até ao aparecimento dos primeiros sintomas).

Assim sendo, as medidas de higiene são fundamentais, já que a transmissão dos vírus desta doença se dá através do contacto direto com secreções respiratórias, fezes de doentes infetados ou com o líquido libertado pelas pequenas bolhas. Ou seja, a transmissão pode acontecer através do beijo, espirro ou tosse, ou aperto de mão com alguém contaminado. O contágio indireto ocorre através da ingestão de alimentos contaminados ou por contacto com brinquedos ou objetos que tenham sido manipulados por doentes, como no caso das crianças pequenas, por exemplo.

 

Quanto tempo dura e o que fazer?

A doença dura habitualmente 7 a 10 dias e resolve espontaneamente, não havendo tratamento especifico para os vírus, mas antes para controlo de sintomas recorrendo-se aos antipiréticos para baixar a febre e analgésicos para alívio das dores de garganta. É essencial manter as crianças hidratadas sendo que os líquidos frios poderão ser mais bem tolerados ao serem eles próprios aliviadores da dor ao nível das úlceras da cavidada oral. Nalguns casos de recusa alimentar total pela criança, poderá haver necessidade de internamento para hidratação por via endovenosa.

Apesar de não ser uma das doenças contempladas na lei das doenças de evicção escolar (pode ler mais aqui), as crianças afetadas pela doença devem abster-se de ir à escola até que resolvam todos os sintomas. A higiene das mãos mesmo após a resolução completa dos da doença é muito importante já que mesmo após a cura se mantém a eliminação fecal dos vírus por mais algum tempo. Da mesma forma, a roupa do dia-a-dia bem como a roupa de cama e os brinquedos devem ser lavados diariamente já que é frequente rebentarem vesiculas/bolhas perpetuando-se a fonte de contágio pois como já mencionado o exsudado libertado é altamente contagioso.

 

Termino reforçando que esta é, felizmente, uma doença benigna e autolimitada na sua globalidade, tendo uma evolução favorável sem complicações e cujo tratamento se baseia em analgésicos e antipiréticos, na hidratação oral, higiene das mãos e das roupas.

E antes que perguntem, não, não há vacina; mas sendo uma doença benigna na esmagadora maioria dos casos, desenvolver uma não parece justificar-se.

 

Até breve.

Brenda Domingues, mãe de dois Príncipes e Médica de Família

 

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