E se é uma Meningite? | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 4 Dezembro, 2015

Creio não estar a exagerar se disser que a meningite é uma das doenças mais temidas pelos pais, sobretudo nos bebés já que quando eles não estão bem só há uma forma de o transmitirem – chorando – seja por desconforto, dor ou fome.

Como já escrevi no primeiro artigo que fiz para o blog, a propósito da vacinação contra o meningococo do tipo B, a meningite de uma forma geral é uma doença (felizmente) pouco frequente. Contudo, ela tem o potencial de não raramente ser muito grave pelas sequelas que pode deixar na criança, sendo a morte uma possibilidade real. Se associarmos isto ao facto de ela atingir o seu máximo nos primeiros anos de vida, o “pânico” não é de todo sem razão. Além disso, não esquecer que se para as meningites bacterianas temos os antibióticos como arma terapêutica relativamente eficaz, nas meningites víricas não temos muito a oferecer além de medidas de suporte e “esperar que o corpo se cure” do bicho mau. Convém no entanto (re)lembrar que são as meningites bacterianas, e em especial as infligidas pelo meningococo do tipo B, as mais graves de todas.

Então, quando devo suspeitar de uma meningite?

Antes de mais, convém salvaguardar que a meningite é tanto mais difícil de diagnosticar, quanto mais pequena for a criança. Por isso, quando há a suspeita de que uma criança possa ter uma meningite, muitas vezes os médicos “picam” as costas com alguma aparente “facilidade” – ou seja, fazer uma punção lombar serve um propósito muito grande que é o de excluir (ou de confirmar) uma meningite de forma tão precoce quanto possível já que dependendo da sua etiologia (causa) o tratamento varia, e nos casos das meningites bacterianas quanto mais precoce for iniciado o antibiótico, maior a probabilidade de sucesso e menor a probabilidade de sequelas. Contudo, não é obrigatório realizar uma punção lombar (ou outras análises/exames) para começar o tratamento; quando a suspeita é muito alta, inicia-se o tratamento mesmo que não haja uma certeza absoluta do diagnóstico dado o mau prognóstico das meningites bacterianas, sobretudo se houver atrasos no início da terapêutica.

Os sintomas da meningite não são específicos, com alguns deles a serem transversais às infecções e a maioria deles a serem transversais às meningites, sejam víricas ou bacterianas. Contudo, a presença de alguns sinais em conjunto não só nos fazem a nós médicos suspeitar (ou não) de meningite como muitas vezes nos dão também uma orientação sobre a sua possível etiologia.

Assim, é frequente na meningite termos:

  • Febre súbita e elevada (>38,5ºC);
  • Irritabilidade (mais para bebés e crianças de tenra idade);
  • Anorexia (falta de apetite);
  • Náuseas;
  • Vómitos;
  • Dor de cabeça;
  • Fotofobia – sensibilidade à luz, com evicção da mesma e preferência pela penumbra ou escuridão;
  • Rigidez da nuca – o pescoço da criança fica tenso sendo difícil e doloroso movimentá-lo, sobretudo quando tentamos aproximar o queixo do peito (saliento que a manobra de avaliação da rigidez da nuca implica treino e conhecimentos);
  • Estado mental alterado – confusão, sonolência, prostração/letargia;
  • Petéquias – pequenas manchas punctiformes de cor vermelho-arroxeada que não desaparecem quando se carrega com o dedo ou com um vidro – estão fixas na pele – este é um sinal típico da meningite bacteriana por meningococo e é um sinal de gravidade;

E se uma Meningite?

Nos bebés e nas crianças mais pequenas, os sintomas clássicos de febre, cefaleia (dor de cabeça) e rigidez da nuca podem estar ausentes ou serem de difícil identificação por serem pouco evidentes. A criança pode aparentar-se lentificada ou sem ação (prostrada/letárgica), irritável, com vómitos e com anorexia (sem vontade de comer). Nestas idade é muito importante a impressão dos pais e cuidadores habituais que conhecem bem a criança – habitualmente referem que a “criança não está bem”, não conseguindo especificar bem o que se passa – este é um sinal muito importante para os médicos e que muitas vezes indica gravidade. O “normal” é a crianças ficar mais prostrada com a febre, sendo frequente em todas as doenças a dor de cabeça com a febre e a anorexia; contudo, quando o antipirético faz efeito, a criança recupera o seu estado por algumas horas, “ficando quase igual a ela própria” nos períodos livres de febre. Isto muitas vezes não acontece nas doenças mais graves como a meningite, estando a criança diferente mesmo quando a febre baixa.

Sempre que haja uma suspeita de possível meningite, a avaliação médica é mandatória e o mais precoce possível.

E se uma Meningite?

Como podemos prevenir?

A melhor prevenção que temos no momento são as medidas de higiene e as vacinas.

A higiene frequente das mãos é a melhor arma para travar a disseminação dos micro-organismos, especialmente em relação aos quais não há vacinas disponíveis. Por isso, lavar as mãos com água e sabão é essencial, sobretudo após o uso da casa-de-banho, após cada muda de fraldas, sempre que espirramos, tossimos ou nos assoamos. Usar a “manga da camisa” em vez das mãos ou um lenço sempre que espirrarmos ou tossimos e evitar tocar na cara com as mãos por lavar, são medidas eficazes e fáceis de realizar no quotidiano.

Em relação às vacinas, temos atualmente uma ampla gama delas disponível e a maior parte está incluída no Plano Nacional de Vacinação (PNV). Hoje temos vacinas especificamente dirigidas aos agentes mais graves da meningite, os meningococo B e C (sendo que a vacina contra o primeiro não faz parte do atual PNV e tem infelizmente um custo económico elevado); e temos vacinas contra outros agentes víricos e bacterianos que têm o potencial para provocar também meningites como são o Streptococcus pneumoniae, o Haemophilus influenzae do tipo b, o vírus do sarampo ou o da papeira. Assim, cumprir o PNV é o que de melhor podemos oferecer às nossas crianças, e não tem custos diretos para os pais (é pago por todos nós e é dos mais completos em todo o mundo). Se for economicamente viável para os pais, administrar as vacinas que não são contempladas no plano nacional de vacinação, como a vacina da meningite B, tanto melhor (mas se não for possível, os pais não se devem culpabilizar; Como digo sempre, não é o facto de podermos dar estas vacinas que faz de nós melhores ou piores pais – e isso é o mais importante para a criança!).

Espero que esta informação vos seja útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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