Não, não quero ter filhos… e depois? | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 8 Setembro, 2018

Não, não quero ter filhos... e depois?

O artigo deste mês é mais um desabafo, uma crítica, e não tanto um texto de informação médica… deu-me para isto e desde já peço desculpa se for contra o que alguns de vocês vão pensar…

Eu sou mãe e sou médica… mas antes de tudo sou Mulher. Tive a felicidade de ter dois rapazes e, portanto, a felicidade de ser mãe, algo que sempre quis desde que me lembro de ser gente.

Mas há uma coisa que me assola desde há uns tempos, talvez por alguém que me é próximo sentir isto na pele com alguma regularidade… há mulheres que simplesmente não querem ser mães… casais que não querem ser pais… pessoas que não querem ter filhos… mas a sociedade ainda não está capaz de os aceitar como deveria…

Numa altura em que vivemos (supostamente) em democracia, em que há liberdade de escolha para tudo e mais alguma coisa, em que se reivindicam direitos atrás de direitos, custa-me muito perceber que se julgue uma mulher (ou um casal) por não querer ter filhos…

A pressão social a que a mulher está sujeita hoje em dia é realmente “do outro mundo”.

Temos de ser (e somos!) supermulheres… somos mãe, esposa, doméstica, filha, tia e amiga, irmã e ainda temos um trabalho fora de casa…. temos uma pressão imensa em relação à imagem e ao corpo… mas e quando alguém é original e foge da regra? Não costuma ser muito problemático, a não ser, se for uma mulher que não quer ser mãe! Aí temos todo um drama…

Uma Mulher que escolhe a independência a todos os níveis, a que prefere avançar com a sua carreira, a que prefere não ter uma vida a dois, vai ser todo um problema para as outras pessoas… a pressão intencional, em relação a ter de “arranjar” um(a) parceiro(a) e uma vida em casal, para depois claro, ter filhos, já não é aceitável… mas porque raio temos todas de ter filhos? Entendo perfeitamente que não se queira a parentalidade… e isso não está errado… é simplesmente uma opção, uma escolha de vida, como é casar ou ter um cão…

Cada vez menos consigo entender esta necessidade que todos querem impor aos outros para seguirem o mesmo caminho… nascer, namorar, casar e reproduzir… Não se pode negar que fisiologicamente nós como os outros animais, fomos “feitos” para nos reproduzirmos. Mas, a verdade é que nós somos animais com o dom do pensamento, com capacidade de escolha… não agimos apenas por instinto e necessidade fisiológica… se assim fosse muitos dos problemas de hoje nem seriam problemas porque ainda estaríamos na idade da pedra.

O que serve para mim, não tem de servir para o meu vizinho. Eu sempre quis ser mãe, mas aceito que haja quem não queira. Os motivos são dos mais variados possível para alguém não querer a parentalidade, e honestamente todos eles são válidos porque temos o direito de escolher. E não temos é o direito de julgar ninguém pela sua opção nem de colocar essa pessoa em cheque.

Acho que a sociedade de hoje, por muita igualdade de direitos que haja, por muita democracia que se queira, ainda está infelizmente muito formatada para a Mulher do antigamente… nós somos o que nos ensinaram a ser, somos a educação que nos deram… podemos mudar e iremos mudar mas vai levar ainda muito tempo… os contos de fadas ainda mostram a mulher indefesa que vem ser salva pelo príncipe encantando e nós ainda contamos estas histórias às nossas filhas e filhos.

Hoje a Mulher também tralha e o homem também cozinha e lava a roupa…

Se uma mãe ou um casal não querem ser pais, não têm de se justificar permanentemente perante os outros. É como uma mãe que não quer amamentar ou uma pessoa que escolhe fumar. São escolhas, são opções, são gostos… só temos de nos respeitar mutuamente, aceitar quem pensa diferente de nós, sem julgamentos. Posso entender ou não, concordar ou não, mas não posso recriminar…

Eu era no início da minha vida adulta, radicalmente contra o aborto e ainda nem era médica… hoje sou médica há mais de 10 anos, tenho 35 anos, sou mãe e mulher, e sou a favor do aborto… não quer dizer que eu fizesse um, mas sou a favor do aborto porque acho que as mulheres devem ter o direito de escolha de uma forma segura… parece um conta senso mas a verdade é que eu não acho que tenha o direito de dizer a alguém o que deve ou não fazer, o que é certo ou o que é errado só porque é o certo para mim… há poucas verdades absolutas neste mundo… e eu não sou mais do que ninguém para julgar outro em relação à sua vida pessoal. Ninguém é.

Há quem não queira ser mãe ou pai, “ponto.” E quem somos nós para acharmos que tem de ser diferente? Se todos gostassem do preto, o que seria do amarelo?

 

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

 

Comments

You may also like

Leave a Comment

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.