O meu bebé bolça, mas porquê? | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 6 Abril, 2018

O meu bebé bolça, mas porquê? | Consultório Médico

Pois é… não há progenitor que goste desta situação, mas eles “andam aí”… e
normalmente não têm problema nenhum! Mas lá que é um pouco chato, lá isso é.
Felizmente nenhum dos meus Príncipes foi uma “bolçador”. Na realidade, às vezes
nem arrotavam. Mas há quem não tenha esta sorte e se veja literalmente em constante
sobressalto pelo medo (que eu diria quase inato e difícil de combater) que destes episódios
possa resultar algo mais complicado de gerir.

 

MAS AFINAL PORQUE É QUE OS BÉBÉS BOLÇAM?

Ora antes de mais temos de perceber um “nadinha” de anatomia. Quando os bébés
mamam, o leite é canalizado até ao estômago através da boca e depois através do esófago
(um tubo muscular). Ora na sua “entrada” no estômago, existe uma espécie de anel à volta do
esófago (chamado esfíncter esofágico inferior), que tem como função deixar passar a comida
do esófago para o estômago, mas não o contrário… ou pelo menos, não completamente e
sobretudo não a comida (já que o ar mais facilmente é expulso e com vantagem para nós).
Ora é aqui que reside o (não) problema dos bébés… eles simplesmente ainda não têm
tudo a funcionar exatamente como é suposto, sendo que este esfíncter é ainda um pouco
imaturo, um pouco laxo, e deixa assim passar um pouco mais do que ar… digamos que ainda
não está treinado… e lá vem então um pouco de leite de volta até à boca…
Ou seja, o esófago tem contrações ritmadas que fazem progredir os alimentos da boca
até ao estomago e mesmo sem estarmos a comer, elas existem na mesma (por exemplo,
estamos sempre a engolir saliva já repararam?). Ora, quando chega uma onda de contrações
esofágicas ao estômago, o esfíncter que mantém o conteúdo do estômago “fechado”, tem de
relaxar para permitir que o conteúdo do esófago entre no estomago. Ora, neste momento,
pode haver (e há muitas vezes nos bébes) “retorno” de um pouco de conteúdo em sentido
oposto ao previsto (refluxo gastro-esofágico), e que alcança assim a boca (regurgitação). Este
fenómeno nos bébés é quase fisiológico (como quem diz, normal e esperado para a idade) e
chama-se vulgarmente de bolçar.
À medida que crescemos, os períodos de relaxamento deste esfíncter passam ser
menores e menos frequentes e a sua funcionalidade melhora. Por isso, vai ocorrendo uma
redução do número de episódios há medida que a criança vai crescendo.

 

MAS BOLSAR É VOMITAR?

Não. Vomitar implica uma contração violenta do estômago que tem por objetivo
rejeitar todo e qualquer conteúdo do próprio órgão de forma rápida e intensa; habitualmente
há mal-estar prévio com náuseas ou dor abdominal ou outros sintomas. A passagem da
comida no vómito é grande quantidade, no sentido ascendente, e rápida, ao contrário do que
acontece na regurgitação. O fenómeno de bolçar, apesar de parecer à primeira vista que
poderia ser considerado um vómito, não ó é porque não há na realidade uma contração
reflexa do estômago e a quantidade que passa é geralmente pequena, nem há indisposição
associada do bébé. O leite apenas sai do estômago porque a “porta” não está completamente
fechada e por isso deixa “vazar” um bocadinho do conteúdo para onde não devia.

O meu bebé bolça, mas porquê? | Consultório Médico

FATORES QUE PODEM AGRAVAR/FAVORECER OS EPISÓDIOS

A distensão gástrica e o aumento da pressão abdominal (provocadas por exemplo
pela deglutição de ar quando os bébés são mais sôfregos a mamar, ou por uma mamada
exagerada ou por gases intestinais mais abundantes); o atraso no esvaziamento do estômago
(que pode ocorrer nalgumas crianças com doenças neurológicas), entre outros fatores,
agravam os episódios de saída de leite pela boca.

O QUE FAZER

Até aos 6 meses de idade a maioria dos bébés deixa de bolçar ou pelo menos terá
uma grande redução do número de episódios. Até lá, há, contudo, algumas medidas que se
podem adotar de forma a tentar minimizá-los, sobretudo naqueles bébés que realmente
bolçam muito:
Não deixar “encher” demais. Se o estômago ficar a “abarrotar”, será mais fácil o leite
refluir porque o estômago está mais distendido. Fazer mamadas mais curtas, mas mais
frequentes, serão uteis para reduzir os episódios de regurgitação do leite;
Evitar a entrada de ar em excesso. Uma boa pega da mama evita a entrada de ar já
que para a mamada é necessário algum efeito de vácuo para a sucção ser adequada; nos
biberões também se deve ter atenção para minimizar a entrada de ar, usando tetinas
adequadas à idade do bébé bem como ter o cuidado verificar que a tetina está sempre “cheia”
de leite; contudo, os bébés às vezes são mais “sôfregos” a mamar e/ou pegam mal na
mama/tetina e engolem mais ar, aumentando o risco de regurgitação; além disso a eructação
(o popular “arroto”) é um momento que facilita o retorno do leite à boca, tanto mais quanto
mais ar o estomago tiver;
Não virar a o bébé nem “apertá-lo” contra nós. O estômago é comparável a um
balão. Se este está cheio até ao limite, se eu o virar de lado ou o apertar, o conteúdo sai facilmente. Por isso, os bébés bolçadores devem ser pegados ao colo com cuidado e devem ser
mantidos ao alto cerca de 20 a 30 minutos;
Elevar a cabeceira na hora de dormir. Existem no mercado várias opções que
permitem criar uma inclinação para o bébé dormir. Não falamos aqui de uma ligeira elevação…
estamos a falar de 45º o que significa que o bébé para não escorregar tem de estar
literalmente suspenso numa espécie de baloiço de pano (nota: há formas de fazer esta mesma
inclinação sem grandes despesas utilizando livros debaixo do colchão e um lençol torcido preso
à cama e que passa entre as pernas do bébé);


Leites AR (anti refluxo). Se o bébé já estiver com leite adaptado (“leite de lata”),
poderá ser indicado passar a um leite AR (um leite mais espesso formulado para dificultar os
episódios de regurgitação). Se este for o caso, poderá sempre pedir a opinião do médico
assistente da criança para saber se é uma opção válida para o seu caso. Da mesma forma, às
vezes pode-se tentar o mesmo efeito usando uma colher de papa no leite; contudo, qualquer
uma das possibilidades deve ser sempre discutida com o médico que acompanha o bébé.
Em relação à possibilidade de recorrer a medicação que evite os episódios de refluxo
(neste caso, a domperidona), a controvérsia está instalada e mantêm-se as dúvidas entre o
risco e o benefício do seu uso nestes casos, dado alguns artigos terem mostrado um eventual
risco cardíaco com o mesmo.

 

QUANDO ME PREOCUPAR

Bolçar é algo esperado nos bébés. Habitualmente a história contada pelos pais
costuma fazer o diagnóstico e as medidas são as já descritas antes, dependendo da
intensidade dos episódios.
Contudo, por vezes, se a apresentação é mais grave que o esperado, se os episódios
surgem com quantidades maiores e com saída do leite em jato (aqui considera-se um vómito
e não regurgitação) ou se as medidas habituais não resultaram, poderá ser necessário um
estudo para excluir outras patologias que possam ser a causa do refluxo/vómitos como a
estenose hipertrófica do piloro, a hérnia do hiato esofágico ou outra malformação congénita,
alergia à proteína do leite de vaca e outras. Nestes casos, é habitualmente necessária uma
avaliação médica, quase sempre altamente diferenciada (médicos especialistas em
gastroenterologia pediátrica), e algumas situações poderão requerer intervenção cirúrgica
para correção.

Mais uma vez, espero que o artigo vos tenha sido útil.

Até breve,
Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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