Ora bolas… Uma mastite?! | Consultório Médico

written by The Cute Mommy 3 Agosto, 2018

Ora bolas... Uma mastite?! | Consultório Médico

De entre os vários problemas que podem surgir após o parto, este é provavelmente um dos que mais incómodo cria e ao mesmo tempo um dos potencialmente mais graves.

Já não chega toda a adaptação à “descida do leite” (ou “subida” se preferirem), nos primeiros dias, que por si só já é habitualmente dolorosa, e ainda temos de nos preocupar se aquela dor que sentimos pode ser mais do que o enchimento normal do peito com o leite tão necessário ao nosso bébé. E como se não chegasse, dar de mamar com uma mastite é um pequeno inferno… e ao mesmo tempo, dar a mama é parte vital do tratamento da própria mastite, ou não fosse ela, no caso das lactantes, um problema de acumulação de leite.

Apesar de haver mastite sem haver amamentação (por exemplo, também acontece no homem), hoje vou-me cingir à chamada mastite puerperal, relacionada à produção de leite pela mulher (o nome pode ser enganador porque ela não acontece apenas durante o período do puerpério que são as 6 semanas após o parto, embora seja mais frequente nessa fase).

 

Mas então o que é exatamente?

A mastite é uma inflamação da mama que, no caso das lactantes, resulta de um bloqueio dos ductos mamários por falta de esvaziamento do leite produzido e que induz uma resposta inflamatória dos mesmos.

A acumulação de leite na mama, leva a que este fique mais espesso e acaba por fazer obstrução dos ductos. Isto leva a que se vá acumulando ainda mas leite para atrás desse ponto. Isto leva ao ingurgitamento do tecido mamário envolvente e a consequente reação inflamatória local. A infeção (que se trata com antibióticos) pode estar presente ou não, mas se a mastite não for resolvida com alguma celeridade, é frequente esta acabar por acontecer sendo necessários antibióticos para curar a mastite.

De salientar, contudo, o mais importante – manter a amamentação é a principal forma de resolver a mastite e esta não impede a amamentação, nem a mesma deve ser suspensa por causa da mastite, mesmo que sejam precisos antibióticos. Os antibióticos que se usam são, regra geral, seguros podendo ser mantida a amamentação e apenas em raras exceções, casos de doença mais grave e avançada, haverá lugar para eventual supressão temporária da amamentação.

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Sintomas

Os primeiros sintomas de mastite, além da dor e rubor mamários, assemelham-se a sintomas gripais.  Inicialmente mama fica ruborizada, primeiro poderá ser apenas numa zona mais circunscrita, mas rapidamente se pode generalizar a todo o seio. A pele fica brilhante e quente e a dor pode ser ligeira de início, sendo agravada pelo toque. A mulher sente-se fisicamente doente, como de uma gripe se tratasse. Podem surgir arrepios de frio, febre e mal-estar geral à medida que o problema evolui. A dor pode passar a ser de uma forma muito rápida a insuportável. Aliás, não raramente, as recém-mamãs dizerem que foi “assim, de repente” ou “de um momento para o outro”.

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O que posso fazer?

Antes de mais, ao primeiro sinal de um nódulo ou ponto doloroso na mama, é preciso ser rápida e começar a literalmente, a esvaziar a mama.

A melhor forma de esvaziar o peito é através, claro está, do nosso bébé. Não há forma mais eficaz e rápida de remover o leite do que a sua sucção. E não há nenhum problema em para ele em consumir o leite de um peito com uma mastite. Portanto, tentar do que o bébé mame mais vezes que o normal, começando pela mama afetada, ajuda a resolver a mastite, mas tendo sempre o cuidado de não deixar que o outro seio fique demasiado cheio e faça também ele uma mastite.

Parece fácil mas não é… os bébés não mamam sempre que nós queremos… e sim, vai doer e muito… Não esquecer que a sucção do bébé provoca um reflexo que liberta uma hormona (aoxitocina) que ajuda a libertar o leite por estimulação da mama – daí que muitas vezes e, sobretudo nos primeiros tempos, enquanto o bébé está numa mama, saia espontaneamente leite também pela outra mama, mesmo que esta não esteja cheia. Ir massajando o peito antes e durante a mamada para ajudar a libertar e a resolver a obstrução ductal.

Pode-se tomar analgésicos, para aliviar a dor, a febre e dar algum conforto enquanto se tenta resolver o problema; tanto o paracetamol (o vulgar Ben-u-ronÒ) como o ibuprofeno (o conhecido BrufenÒ), são seguros, mas não se pode tomar por exemplo o ácido acetilsalicílico durante a amamentação (a popular AspirinaÒ) por riscos para o bébé. E sim, mais uma vez reforço, mantém-se a amamentação na mastite pois caso contrário só vai piorar a cada hora.

Pequenas dicas que ajudam a resolver a mastite e que devem ser desde logo usadas para uma resolução o mais precoce possível da situação:

Aumentar a ingestão de líquidos por parte da mãe;

– Usar soutiens soltos e adaptados a amamentação e evitar roupa justa;

Massajar a mama no sentido do mamilo, gentilmente em pequenos círculos, e fazer esvaziamento manual para ajudar a correr o leite, usando se necessário calor ligeiro (toalhas mornas ou ir para debaixo de um duche tépido) para que o leite fique mais líquido, a mama menos tensa e assim a pega mais fácil para o bébé mamar;

– Usar toalhas frias entre mamadas podem ajudar a aliviar a dor e o inchaço da mama afetada;

Relaxar na altura de dar de mamar – ambientes calmos e aconchegantes, com uma música de fundo do nosso agrado para que nada nos perturbe e uma respiração profunda e calma, facilitam a amamentação e o esvaziamento da mama;

Descansar – Sim, o repouso na cama ajuda, com elevação das pernas;

Variar a posição da amamentação para que não fiquem áreas de acumulação de leite (por exemplo, quando sentada poderá haver acumulação nos quadrantes inferiores e mais profundos enquanto que quando estamos deitadas de lado, será nos quadrantes externos do mesmo lado onde haverá mais acumulação de leite – são zona de apoio pela gravidade e que  por isso se torna a saída do leite na mamada);

– Se tolerar, usar uma bomba para esvaziamento da mama afetada…. tirar leite até a mama ficar menos tensa e dolorosa por forma a aguentar até à próxima mamada e guardar, claro, o leite para uma toma posterior pelo bébé.

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Quando procurar o médico

Depois de tentar as várias formas de aliviar e esvaziar a mama, ou mamas, durante 12h a 24h, sem que se consiga resolver a situação com sucesso, mantendo a dor mamária, o inchaço e o vermelhão, a mama endurecida e a sensação de mal-estar, com febre a agravar progressivamente, então, não hesite em ir ao médico. Como já referido antes, a evolução pode ser muito rápida, com a mastite a aparecer “em força” quase que de um momento para o outro… aí poderá nem dar para esperar algumas horas só com as medidas não farmacológicas até recorrer ao médico.

Apesar de não ser muito frequente, pode haver recorrência da mastite, seja porque a anterior não ficou bem curada seja por haver de algum fator que predisponha a mulher a tal (uma má pega do bébé ou as gretas do mamilo, por exemplo). De qualquer modo, nunca atrasar o tratamento da mastite para evitar as complicações, sobretudo as mais graves como o abcesso, a necessidade de cirurgia ou uma infeção generalizada grave (sépsis).

Se por acaso acontecerem mastites de repetição, deve procurar o médico porque em casos raros, a mastite recorrente pode ser um sinal de alarme para um cancro de mama.

Como prevenir

A melhor maneira de prevenir é garantir o esvaziamento completo da mama, quer através do cumprimento dos horários para amamentar, quer conseguindo uma pega adequada pelo bébé.

Quase todas as medidas já descritas para tratar a mastite são as mesmas para evitar a doença.

Assim, evitar que a mama fique muito cheia entre mamadas – por vezes é preciso fazer a expressão manual de uma pequena quantidade de leite para alívio da tensão mamária (e também pode ser usada a bomba elétrica sem problema, desde que bem tolerada).

Deixar o bébé esvaziar a primeira mama completamente antes de oferecer a outra, alternando as mamas na sessão seguinte.

Variar a posição em que amamenta para que o leite seja removido de todos os quadrantes da mama.

Garantir uma boa técnica de amamentação com uma boa pega por parte do bébé – este deve estar posicionado em frente à mama, com a boca à altura do mamilo e confortavelmente apoiado tal como a mãe;

Amamentar com mais frequência, sobretudo se a mama estiver cheia de leite (ou usar uma bomba para extrair o leite extra e armazenar o mesmo);

Se há problemas com a amamentação ou se houver dúvidas em relação a algum aspeto (horários, pega do bébé ou outro qualquer), não hesite em procurar ajuda junto de pessoas diferenciadas na área.

Evitar roupa justa, tal como soutiens, tops ou camisas e tratar adequadamente qualquer ferida mamária que limite a amamentação (por exemplo, as gretas do mamilo) ou que possa ser uma porta de entrada para uma infeção da mama.

Mais uma vez, espero que o artigo vos tenha sido útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

NOTA: os nomes comerciais usados neste artigo foram meramente exemplificativos de fármacos comumente conhecidos pela marca para melhor entendimento do artigo; não tenho qualquer acordo comercial ou interesse económico nos mesmos nem nenhum conflito de interesses.

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