A Pneumonia… Mata! | Consultório de Nutrição

written by The Cute Mommy 4 Janeiro, 2019

A Pneumonia... Mata! | Consultório de Nutrição

Aqui há uns tempos passou uma publicidade televisiva a propósito da pneumonia, que dizia na minha perspetiva algo muito importante… a pneumonia mata!

E se calhar isto soa estranho a muitos de vós que já fizeram se calhar antibióticos por causa de um “principio de pneumonia” … ora, não há princípios de pneumonia. Há pneumonias com critérios de internamento (graves) e pneumonias menos graves, cujo tratamento se pode fazer em casa.

A pneumonia é uma das principais causas de hospitalização e mortalidade em Portugal. Segundo o relatório da Health at Glance 2018, Portugal registou a maior taxa de mortalidade por pneumonia em 2015 com 57,7 pessoas por cada 100 mil habitantes a morrerem por esta doença. Em 2008 a taxa de mortalidade foi de 27,8 pessoas por cada 100 mil habitantes.

Mas então, o que é mesmo a Pneumonia?

Nada mais fácil. A pneumonia é a infeção do nosso tecido pulmonarpor um agente microbiano (bactérias, vírus, fungos). A infeção faz com que haja preenchimento dos nossos alvéolos com líquido/secreções, com consequente incapacidade deste fazer as trocas entre o oxigénio do ar e o dióxido de carbono do sangue.

Os agentes infeciosos podem ser bactérias ou vírus (os mais frequentes) ou ainda fungos (mais raros). As bactérias mais frequentemente envolvidas na pneumonia bacteriana são o Streptococcus pneumoniae, o Haemophilus influenza tipo b (Hibe o Mycoplasma pneumoniae; já nas víricas temos o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), os vírus Influenza A eB (vírus da gripe) e ovírus Parainfluenza.

A maior parte das pneumonias é adquirida através da aspiração de bactérias que existem normalmente na parte superior da nasofaringe e se tornam agressivas em determinadas condições. Podem também surgir através de inalação de gotículas infetadas provenientes de outros doentes, como no caso das pneumonias virais.

Este artigo vai-se centrar na pneumonia mais comum – a Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) de origem bacteriana (já perceberam há outros tipos de pneumonias que não vamos aqui conseguir explorar e que, convenhamos, para o comum mortal, são bem menos interessantes).

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Fatores de Risco

Os principais fatores de risco para a pneumonia não serão muito diferentes de outros já falados para outras doenças. Ou seja:

  • Idade– os extremos etários (crianças com idade < 2 anos e adultos >65 anos);
  • Doenças crónicas (diabetes, doença hepática ou renal crónica, doença cardíaca crónica, asma, doença pulmonar obstrutiva cronica, fibrose quística…);
  • Pessoas institucionalizadas;
  • Imunodeficiência (de qualquer etiologia – cancro, VIH, secundária a corticoterapia ou quimioterapia, desnutrição, infeção recente, transplantados…);
  • Tabaco: o fumo do tabaco provoca uma reação inflamatória crónica no pulmão que facilita a penetração de agentes infeciosos;
  • Álcool: interfere no sistema imunológico e na capacidade de defesa do aparelho respiratório;
  • Dependência de drogas de abuso.

 

Sintomas da Pneumonia

Infelizmente, a pneumonia não apresenta sintomas específicos que nos permitam fazer um diagnóstico imediato. Ao invés, os seus sintomas são na realidade comuns a tantas outras doenças respiratórias ou mesmo doenças de outros sistemas. Se não vejamos alguns dos mais frequentes:

  • Arrepios de frio / tremores / suores;
  • Tosse, com ou sem expetoração;
  • Febre;
  • Dor no peito;
  • Dor de cabeça;
  • Dores musculares;
  • Batimento cardíaco rápido;
  • Dificuldade respiratória / falta de ar – respiração acelerada e superficial, com falta de ar com pequenos esforços ou mesmo em repouso;
  • Cansaço / astenia / fraqueza.

 

Alguns sintomas menos frequentes, mas que podem ocorrer na pneumonia, são:

  • Expetoração ensanguentada (hemoptise);
  • “Chiadeira” ao respirar / respiração ruidosa;
  • Sonolência / prostração / desorientação (especialmente nas pessoas mais idosas);
  • Falta de apetite;
  • Náuseas / vómitos.

 

Qualquer um destes sintomas se pode instalar de forma mais insidiosa ou de forma rápida e não estão muitas vezes todos presentes ao mesmo tempo.

 

Quando procurar o médico

Há alguns sinais de “alarme”que devem motivar uma visita ao médico mais precocemente; é o caso de febre que persiste por mais 48 a 72 horas e com intervalos cada vez mais curtosou picos sucessivamente mais altos e mais rápidos; se houver falta de ar ou dificuldade a respirar. O agravamento progressivo rápido, com agravamento franco da febre e fraqueza generalizada cada vez mais pronunciada deve ser sempre preocupante.

Os sintomas variam ainda mais em bébés e idosos. Pode não ocorrer febre. Pode não haver dor no peito ou as pessoas podem não conseguir comunicar que estão com dor torácica. Muitas vezes, o único sintoma é a respiração rápida ou uma recusa alimentar súbita na criança, enquanto no idoso a confusão repentina pode ser o único sinal de pneumonia.

 

Diagnóstico & Tratamento

Além da história clínica, sempre essencial e com detalhes temporais em relação aos sintomas, medicação já realizada (prescrita por médico ou da iniciativa do doente), patologias associadas e sua terapêutica, hábitos e estilos de vida (como o tabaco ou o álcool), antecedentes médicos prévios e história recente de outras infeções, é a evolução dos sintomas no tempo e a sua gravidade que ajudam o médico a excluir ou a suspeitar de uma pneumonia, em conjunto com o exame físico, onde a avaliação torácica e pulmonar (através da auscultação) têm um enorme peso claro está.

Após a avaliação médica, podem ser pedidos alguns exames auxiliares de diagnóstico, ou não. Ou seja, há casos em que nós fazemos o diagnóstico de pneumonia, mas onde a sua gravidade não justifica realizar nenhum exame, seja a radiografia do tórax ou análises de sangue. Noutros casos, quer por dúvida quanto ao possível diagnóstico ou pela gravidade que o doente apresenta, o médico tem mesmo de se munir de alguns exames para melhor decidir como atuar.

Os meios complementares de diagnóstico que mais frequentemente pedimos numa primeira abordagem na pneumonia, ou na suspeita dela, são a radiografia de tórax e análises ao sangue, incluindo uma gasometria (uma análise de uma amostra de sangue arterial que permite rapidamente classificar o risco do doente ao dar-nos a oxigenação do sangue e, portanto, o nível de compromisso das trocas gasosas no pulmão). Estes exames permitem confirmar ou ter um elevado grau de suspeição do diagnóstico e ao mesmo tempo estratificar o risco do doente e iniciar alguns tratamentos de imediato. No entanto, ainda assim, pode ser necessária mais investigação com outros exames, quer para melhor esclarecimento de eventuais lesões pulmonares ou torácicas (como a Tomografia Axial Computorizada – TAC) quer para identificação do agente em causa (recorrendo a análises da expetoração e/ou da urina para se tentar identificar o agente em causa).

O tratamento da pneumonia bacteriana, passa pela toma de antibiótico, às vezes mais do que um ao mesmo tempo. Mas há também muitas vezes necessidade de tratamento com outros fármacos como os mucolíticos/expetorantes, oxigénio, broncodilatadores ou corticóides. Nos casos mais graves, é muitas vezes necessário iniciar o tratamento por via endovenosa e só posteriormente se dá a passagem para terapêutica por via oral que habitualmente os doentes terminam já em casa.

Outra parte fundamental do tratamento de uma pneumonia, além dos já referidos, são o repouso, a hidratação e a nutrição adequada. De salientar que apesar de o tratamento com antibiótico durar entre 7 e 14 dias, a recuperação clínica total do doente leva várias semanas podendo mesmo ser superior a 2 meses com alguma frequência.

Ocasionalmente, existem complicações nas pneumonias, como o derrame pleural (que obrigam a intervenções especializadas para drenagem pleural), o abcesso pulmonar ou mesmo uma sépsis (quando o agente infecioso consegue chegar ao sangue e disseminar-se pelo corpo, havendo aqui elevado risco de morte).

Prevenção

Além da evidente indicação para evitar os fatores de risco derivados do estilo de vida que escolhemos e que facilitam a ocorrência de pneumonias, a vacinação é outra via de prevenção, sobretudo nos doentes de alto risco. As vacinas contra a gripe e contra a pneumonia protegem as pessoas das formas mais agressivas da doença e têm indicações precisas que se devem cumprir, sendo que ambas se podem administrar ao mesmo tempo desde que em locais distintos.

Embora tenha sido uma abordagem muito sucinta da pneumonia, e com especial enfoque na bacteriana, a verdade é que já vi muitos casos graves porque as pessoas “deixam andar” a “ver se passa”. Sabendo que o que vou escrever não é consensual, costumo dizer uma coisa com alguma frequência aos meus doentes… na dúvida mais vale ir ao médico e ser avaliado… antes não ser preciso (e só o sabemos depois de vermos), do que vir tarde demais….

 

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

 

 

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