Parece um assunto fora de tempo, porque o Verão está a acabar, mas não é. Este é um assunto que interessa a todos, mas especialmente aos pais. E porquê? Porque é na realidade possível morrer afogado depois de se ter engolido uns pirolitos de água… e são as crianças quem tem maior risco de incorrer neste problema. 

O afogamento é um grave problema de saúde pública, que é frequentemente negligenciado, sendo responsável pela morte de um elevado número de pessoas todos os anos em todo o mundo. É uma das três principais causas de morte nas crianças até aos 14 anos de idade.

A morte por afogamento após um episódio em que a criança engoliu ou aspirou água, embora raro, representa cerca de 1-2% dos afogamentos e, sendo evitável, importa ficar alerta e saber reconhecê-lo ou pelo menos a sua possibilidade. Aquilo a que comumente chamam de afogamento “secundário” ou tardio é uma asfixia que ocorre ao longo das horas seguintes à aspiração de água e que não é mais do que o processo de afogamento que se inicia com a aspiração. E pode acontecer tanto com água doce como com água salgada ou com outros líquidos. Ou seja, pode acontecer numa qualquer piscina, praia ou banheira, por exemplo.

O que é então o afogamento

Em 2002, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu afogamento como um processo fisiológico de aspiração de líquido não corporal por submersão ou imersão, que pode conduzir a hipoxia (falta de oxigénio nos tecidos) e a paragem cardíaca. O afogamento é um processo que pode ser ligeiro, moderado ou grave e pode ser fatal (quando há morte) ou não fatal (quando a vítima sobrevive com ou sem sequelas), podendo ser interrompido.

Embora esta não seja uma terminologia medicamente correta, dada a sua ampla divulgação há uns anos na comunicação social, vou optar por usá-la para que seja mais fácil de fixarem e associarem a mensagem que interessa passar. O que as pessoas chamam de afogamento “secundário” ou “tardio”, apesar de raro, é o processo de afogamento (desculpem-me o pleonasmoque se mantém após um incidente com água (ou outro líquido qualquer), apesar de o indivíduo já não estar na água. O acidente pode envolver submersão ou não, mas envolve inalação ou aspiração da água, mas sem que ocorra um afogamento imediato. Aparentemente o indivíduo até fica bem quando recupera e tudo não parece mais do que um grande susto. Só que estes são exatamente os casos aos quais devemos estar mais atentos!

A verdade é que ao chegar aos alvéolos pulmonares, a permanência de água nestes faz com que se vá desenvolvendo um edema pulmonar (a acumulação de líquido ou o “encharcamento” do pulmão), por diversos mecanismos. No caso dos afogamentos em piscinas, o tratamento da água com químicos, os quais são irritantes para os brônquios, provocam também uma inflamação acrescida dos alvéolos que agrava ainda mais o edema.

Estes dois fenómenos conjugados levam o pulmão a perder sua função de oxigenação do sangue por lesão da membrana alvéolo-capilar e consequente acumulação de líquido que impede as trocas gasosas. Com isto vai acontecendo um afogamento silencioso e ao longo de umas quantas horas, sendo que de início poderá não haver grande sintomatologia.

Sinais e sintomas

Atenção que a entrada de água nos pulmões pode acontecer mesmo quando os acidentes não parecem muito graves e quando aparentemente até foi pouca a água inalada/aspirada.

Apesar de muito raro e mais comum em crianças do que em adultos, o afogamento “tardio” pode se manifestar com:

  • Vómitos;
  • Cansaço excessivo, falta de energia, “moleza”; 
  • Sonolência fora dos horários habituais; 
  • Comportamento fora do habitual;
  • Tosse mantida;
  • Dificuldade em falar;
  • Dor no peito;
  • Pieira (“chiar” a respirar); 
  • Respiração acelerada ou falta de ar;
  • Cianose (palidez ou coloração azulada/arroxeada dos lábios e dedos). 

Recomendações

A melhor recomendação que se pode dar aos pais é a de não deixarem os seus filhos sem supervisão – para prevenir o afogamento, o mais importante é a supervisão constante dos filhos, sempre ao alcance de uma mão ou de um braço.

Nas crianças mais pequenas, pequenas quantidades de água podem ser suficientes para uma tragédia acontecer. As piscinas insufláveis para bebés têm água o suficiente para provocar uma morte: uma criança com menos de dois anos pode afogar-se numa poça de água devido ao peso da cabeça em relação ao resto do corpo, tornando impossível que ela se consiga levantar se cair com a cara dentro de água. Isto infelizmente acontece com mais frequência do que imaginam…

Portanto, no caso de se dar um acidente, como uma queda na água (com submersão ou não) ou um engasgamento, não vamos agora pensar que se vão todos morrer umas horas a seguir e com isso impedir que os nossos filhos entrem na água porque temos medo que se afoguem! Se após um incidente deste género, a criança fica completamente bem e assintomática e assim se mantém nos momentos e horas seguintes, tudo não foi mesmo um susto. Mas, se apesar de a criança parecer inicialmente bem e até recuperada após um incidente destes, começam a surgir alguns dos sintomas acima mencionados nas horas seguintes, é necessário recorrer ao hospital para que a criança seja observada e avaliada, de forma a garantir que não há lesões respiratórias. Poderá acontecer o caso de nós médicos, querermos que a criança permaneça umas horas sob nossa vigilância para garantir que não há realmente risco de acontecer o pior.

Não se esqueçam que o afogamento é rápido, silencioso e evitável!

Espero que a informação vos tenha sido útil.

Até breve,

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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