Quando a timidez é uma ameaça | Consultório de Psicologia

written by The Cute Mommy 28 Outubro, 2016

Quando a timidez é uma ameaça | Consultório de Psicologia

As queixas mais frequentes que me chegam ao gabinete estão relacionados com problemas comportamentais. A família e profissionais da educação sentem e manifestam muita dificuldade em dispor de respostas adequadas para crianças com um comportamento mais externalizador, tais como: agitação, desobediência, rebeldias, oposição, desafio, … De facto, este tipo de comportamento tem um impacto maior numa sala de aula ou numa situação social e consiste num desafio maior para no momento conseguir controlar. Porém, existe outro tipo de crianças, com um comportamento mais internalizador, ou seja, são aquelas crianças que nunca destabilizam o funcionamento de sala, são crianças apagadas e que mal se dá conta da sua presença, solitária, isolada, que estabelece pouco contacto com outras crianças, que preferem os adultos e, nestes casos, é tão ou mais importante os profissionais e família estarem atentos.

São crianças inseguras, que não incomodam, são muito “sossegadinhas”, “calminhas”, e muitas vezes o alvo preferido de gozo, potenciais vítimas de bullying e de sofrerem de exclusão entre o grupo de amigos no recreio e outros convívios sociais, assim o adulto acaba por ser o seu amigo preferido, preferem a companhia do adulto às brincadeiras com crianças.

Sou da opinião de que uma criança é curiosa por natureza e com necessidade de explorar o que a rodeia, tem necessidade de sentir o mundo, tocar, cheirar, falar, questionar, experimentar e quando isto não acontece significa que algo está a bloquear e espontaneidade da criança. A criança inibe-se e isola-se não se permitindo experimentar, errar, acertar e repetir para aprender porque vive num ambiente altamente protector ou excessivamente autoritário não permitindo á criança errar para aprender. Em casos de sobreproteção, existe preocupação excessiva em proteger, em que a criança não se magoe física e psicologicamente, então não volta a fazer para não sofrer, em casos de excessiva autoridade exercida pelos pais, não é aceite o erro, e quando acontece são penalizados física ou psicologicamente, vivem num ambiente altamente castrador. Em ambas medo perde a espontaneidade. Em ambas as situações a criança vive sobre o medo que bloqueia o comportamento e ocorre a perda da espontaneidade.

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A criança segura de si, independentemente de fazer certo ou errado, mas que acredita em si, de que é capaz e que se aceita como é, vê o meio ambiente como uma oportunidade de descoberta e experiências novas. Aceita quando erra, vê as dificuldades como desafios para serem superados e não como obstáculos, não desiste e persiste, aprende a lidar com as adversidades da vida, com as frustrações, e saber esperar e lutar pelo seu objectivo.

A criança insegura não acredita na sua competência e de que consegue fazer com que o outro reconheça em si aspectos positivos, sente-se falhada, diminuída e inferiorizada, e por isso opta pelo caminho mais fácil, não participar, não se incluir para não vivenciar.

O primeiro meio social com o qual a criança contacta é em sua casa com a sua família e é aqui que aprendem a ser seguros e autoconfiantes. Cabe aos pais transmitir e permitir experienciar situações que os permitam ser autoconfiantes e seguros das suas capacidades. É deixa-los vivenciar pelos seus próprios meios e de forma autónoma, sempre com a supervisão necessária, sem fazer por eles o que eles próprias podem assumir responsabilidade, é acreditar nos seus filhos e de que são capazes de mais e de melhor incutindo valores de superação e de luta pelos seus desejos e objectivos e aceitar os seus erros como fazendo parte da aprendizagem.

Quando a timidez é uma ameaça | Consultório de Psicologia

O grupo de pares é o meio social seguinte que permite a criança experienciar situações sociais e numa relação de igual para igual aprendem a defender-se, tal como na vida selvagem, também os tigres bebés que aprendem a lutar com os seus irmãos. A criança que não procura relação com o grupo de pares, e os vê como uma ameaça, com os quais não conseguem lidar emocionalmente, procuram relações mais securizantes entre os adultos.

Resiliência de uns e outros

Muitas vezes questionamo-nos como é que uns ultrapassam mais facilmente graves dificuldades enquanto outros com menos deixam-se ir abaixo, e quando assim é, estamos a fazer de níveis de resiliência. O ideal é que a resiliência seja trabalhada e aprendida em casa e, quando necessário, com profissionais competentes, e quanto mais cedo melhores resultados.

A resiliência não é nada mais do que a capacidade da pessoa lidar com a adversidade com que se depara, gerindo emocionalmente a situação frustrante, conseguir seguir dar a volta a situação, aceitar e adequar-se as condições, de forma optimista, e arranjando alternativas para se adaptar sem perder os seus objectivos e voltar ao seu estado normal. O tempo com que ocorre este processo interior é variável de pessoa para pessoa (exemplo: pense quando deixa cair uma pedra dentro de um copo de água, o impacto da pedra vai causar alterações na água, vai desestabilizar, criar ondulações, e quanto maior for o impacto mais alterações ocorre. Para voltar ao seu estado normal, á sua forma original, demora o seu próprio tempo, mas volta).

Com o ser humano o processo é o mesmo, quando é criticado não vai gostar, vai causa impacto, porque ninguém gosta! A melhor forma de aceitar e ultrapassar a critica é olhar para a crítica como sendo algo exterior á pessoa, ou seja, algo que surge apenas de uma mera opinião de uma outra pessoa, que pode estar certa ou errada, e não como algo que está dentro de si. É mais difícil lidar com a crítica de uma pessoa, dizendo que a criança é “gordinha”, se a própria criança aceitar como um defeito seu, e não o vir apenas como uma opinião de uma pessoa e que vale o que vale.

Até breve,

Núria Silva

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