Pernas para que vos quero…

Falar de varizes é um assunto comum, sem grande interesse aparente, não fosse um problema que afeta tantas pessoas à nossa volta e que pode trazer várias chatices, algumas das quais com um potencial de gravidade relevante. 

Embora seja um problema benigno, é uma patologia que provoca uma importante perda de qualidade de vida, não somente pelo aspeto inestético que provoca, mas também por ser uma doença crónica, com sintomas diários e que a longo prazo pode provocar várias sequelas.

Como aparecem?

As veias das nossas pernas permitem o retorno do sangue ao coração da metade inferior do nosso corpo, num fluxo contra a gravidade. 

Quando as paredes destas veias, e/ou as suas válvulas, deixam de funcionar corretamente, em vez de existir um fluxo sanguíneo unidirecional ascendente pelas pernas, o sangue passa a fluir mais lentamente como chega mesmo a refluir (“andar para trás”). Isto provoca uma acumulação de sangue nas pernas, com consequente aumento de pressão dentro dos vasos de forma sequencial e cria uma resposta inflamatória nas veias. Estes fenómenos ao longo do tempo, vão lesando e estragando os nossos vasos e levam ao aparecimento não só de sintomas, mas também de complicações locais. A dilatação progressiva das veias para acomodar o sangue que não sobe acaba por afetar os diferentes tipos de vasos das pernas, incluindo os mais finos como os capilares que também dilatam (originando as telangiectasias e/ou aranhas vasculares). A fase terminal deste processo surge com a roturas destes capilares que leva ao aparecimento, sobretudo nos tornozelos, de uma tonalidade violácea escura – assim se criam as condições necessárias para que mais cedo ou mais tarde possam surgir complicações, como as úlceras.

Sinais e sintomas

Os sintomas mais frequentes desta patologia tão frequente na população, são:

  • Os edemas dos tornozelos e pés – especialmente ao final do dia; 
  • As dores nas pernas, com a sensação de pernas cansadas/pesadas; 
  • comichão das extremidades; 
  • As veias varicosas– veias dilatadas do sistema venoso superficial são torna-se muito visíveis e tortuosas criando papos nas pernas e alterando a cor da pele; 
  • Alterações tróficas da pele – a perda dos pêlos, o aumento da pigmentação cutânea com aparecimento de manchas escuras, o rubor e o espessamento da pele – são alterações que vão ocorrendo ao longo do tempo à medida que a doença evolui e se vai comprometendo retorno do sangue; 
  • Úlceras da pele – o aparecimento de úlceras varicosas (feridas com origem da má circulação sanguínea ao longo das veias), representa um estádio mais terminal da doença que é habitualmente muito recorrente e de difícil tratamento; esta complicação implica um enorme impacto na qualidade de vida do doente além de elevados custos para o sistema de saúde.

Causas e fatores de risco

 Existem vários fatores que podem favorecer o aparecimento de varizes: 

  • Tabaco – indivíduos fumadores têm maior incidência desta patologia venosa; 
  • Género – a mulher tem uma incidência maior de doença varicosa que o homem;
  • Peso – a obesidade é um fator de risco para desenvolver varizes;
  • Tratamentos hormonais– em particular o uso de pílula e outros tratamentos relacionados às hormonas sexuais, como a terapêutica hormonal de substituição na menopausa, aumentam o risco de doença venosa ao favorecerem a viscosidade sanguínea e logo um retorno venoso mais lento e diminuído;
  • Idade– a partir dos 50 anos, a probabilidade de desenvolver insuficiência venosa periférica é maior; 
  • Gravidez– o aumento da pressão abdominal e o ganho ponderal, além das alterações hormonais próprias da gravidez (que favorecem o relaxamento venoso e consequente acumulação de sangue), são fatores que ajudam quer durante a gestação como no pós-parto, ao aparecimento deste problema; 
  • Doença venosa prévia– o desenvolvimento de um trombo numa veia (trombose venosa) pode provocar uma lesão direta quer das paredes da veia como lesão direta ou indireta da válvula venosa e levar ao aparecimento de varizes (a obstrução à passagem do sangue provocada pelo trombo, leva a uma acumulação de sangue com consequente e dilatação das paredes das veias a montante); 
  • Períodos prolongados em pé ou sentado – a inatividade dos membros inferiores em posições repetidas e sustentadas, favorece o aparecimento de veias varicosas, já que pela ação da gravidade o retorno fica dificultado, aumentando a pressão dentro dos vasos e lesando parede e válvulas venosas (a contração dos nossos músculos das pernas em conjunto com as válvulas das veias, são os principais mecanismos que permitem um fluxo sanguíneo unidirecional ascendente);
  • Genética– história familiar de doença venosa crónica (materna ou paterna), aumenta o risco individual de desenvolver a doença.

Diagnóstico

histórica clínica é uma peça-chave no diagnóstico da doença. Embora em estádios avançados não seja difícil de perceber a patologia, já que as varizes são na maior parte das vezes visíveis através da pele, nos estádios iniciais a situação nem sempre é assim tão linear. Além disso, é também preciso perceber se as queixas podem ter origem noutro problema que não a doença venosa crónica. 

inspeção das pernas é peça fundamental do estudo diagnóstico já que permite uma avaliação direta da patologia e suspeição da mesma (podem não existir veias varicosas exuberantes, mas poderão existir apenas alguns sinais indiretos das mesmas como é o caso das telangiectasias– as chamadas aranhas vasculares que não são mais do que os vasos capilares dilatados por aumento da pressão venosa). 

Na suspeita de varizes ou quando até já está estabelecido o seu diagnóstico clínico, o eco-doppler venoso dos membros inferiores é essencial. Este tipo de ecografia avalia o fluxo sanguíneo dentro das veias quantificando a sua velocidade e a direção. Faz não só a confirmação ou exclusão diagnóstica, mas também identifica as veias e respetivos territórios venosos afetados pela doença. 

Tratamento

Sem tratamento, a doença é progressiva, e dá origem, mais cedo ou mais tarde, a complicações

O objetivo do tratamento é a resolução de sintomas e a evicção de complicações, ou seja, sobretudo as tromboses venosas e úlceras das pernas. 

O tratamento da doença venosa é muitas vezes invasivo, mas passa sempre pelo uso de mecanismos de compressão externa (as meias elásticas) e muitas vezes por fármacos venotrópicos.

O uso de meias elásticas é o tratamento base da doença venosa crónica – quer como prevenção (por exemplo, uso de meia elástica em mulheres sem doença durante a gravidez, e especialmente em mulheres com história familiar positiva ou com algum fator de risco de que facilite o aparecimento da doença) quer como tratamento de sintomas relacionados com as varizes quando estas já existem.  A gradação de pressão das meias elásticas, com uma compressão mais elevada ao nível dos tornozelos que diminui ao longo da perna até à raiz da coxa, permite a aumentar o fluxo de retorno do sangue e a diminuir a pressão deste nos vasos, uma vez que a compressão externa reduz a acumulação sanguínea promovida pela gravidade, inatividade e pela lesão existente das veias. 

Os venotrópicos têm por objetivo diminuir sintomas ao melhorar o retorno venoso do sangue das pernas. Contudo, eles não conseguem recuperar uma válvula que ficou incompetente e implicam uma ou mais tomas diárias de forma contínua. Eles melhorar a tonicidade da parede das veias melhorando a sua resistência e diminuindo a inflamação associada a este processo e assim diminuindo a acumulação de sangue nos membros. 

Na presença de dilatações varicosas de menores dimensões poderá ser necessário apenas recorrer à escleroterapia– ou seja, à injeção de um produto dentro da veia que a faz “secar”, fazendo com que aquele vaso colapse e seja reabsorvido, deixando assim de acumular sangue. 

Nos casos mais exuberantes, como nas varizes tronculares (com afetação das veias de maior calibre), a cirurgia poderá ser necessária. A evolução da técnica cirúrgica nos últimos 30 anos foi enorme, fazendo-se atualmente procedimentos cada vez menos invasivos e de recuperação mais rápida. O laser endovascular ou a ablação por radiofrequência, são neste momento as técnicas mais usadas. Ambas são procedimentos endovenosos (dentro das veias) que um tratamento cirúrgico com incisões tão pequenas que nem são precisos pontos de sutura para os encerrar. Ambas as técnicas tornaram o tratamento das varizes num procedimento de ambulatório (sem necessidade de internamento) – o doente entra e sai pelo seu pé no mesmo dia. 

No caso de haver complicações, poderão ser necessários outros fármacos (como antibióticos em caso de úlcera infetada), hipocoagulantes no caso de trombos venosos (estes são fármacos que torna o sangue mais fluído e dificultam a formação de coágulos e ajudam a que coágulos preexistentes sejam reabsorvidos/destruídos pelo nosso organismo). 

Independentemente do conjunto de tratamentos necessários e adotados caso-a-caso, há algumas alterações que podem fazer toda a diferença na evolução da doença venosa crónica. Assim:

  • Evitar longos períodos sentado ou em pé – se sentado, fazer pequenos intervalos e esticar as pernas de forma regular e os tornozelos, por forma a aumentar o retorno do sangue e diminuir a pressão nas veias; se em pé, tentar sentar por curtos períodos a intervalos regulares para que os mesmos benefícios aconteçam; 
  • Fazer exercício– melhorar a musculatura das pernas, melhora a “bomba” de sangue e a tonicidade das veias com vantagens na prevenção bem como na melhoria de sintomas crónicos de insuficiência venosa; 
  • Perder peso, especialmente na obesidade, melhora os sintomas da doença venosa crónica; 
  • Elevar as pernas acima do nível do coração– isto diminui mais rapidamente a pressão nas veias doentes, melhorando o retorno sanguíneo nas pernas e aliviando mais depressa os edemas e a sensação de pernas cansadas.

De salientar que a doença venosa crónica apesar de ter tratamento não tem na realidade cura. O tratamento permite ir eliminado as veias dilatadas e mais doentes e que causam sintomas e diminuir assim o risco de ulceração. Contudo, o nosso organismo vai desenvolvendo novas veias, que não sendo nativas, não são tão fisiológicas. Daí que, mesmo tendo feito uma intervenção cirúrgica (ou mais), se mantenha a necessidade e tratamento crónico, seja com venotrópicos e meias elásticas, seja com esclerose venosa ou até com nova intervenção cirúrgica. 

Espero que a informação vos tenha sido útil. 

Até breve, 

Brenda Domingues, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

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